(Bright), de David Ayer.
Com Will Smith, Joel Edgerton, Lucy Fry, Noomi Rapace, Edgar Ramirez, Enrique Murciano, Ike Barinholtz e Jay Hernandez.
Em um mundo futurista, seres humanos convivem em harmônia com seres fantásticos, como fadas e ogros. Mesmo nesse cenário infrações da lei acontecem e um policial humano (Will Smith) especializado em crimes mágicos é obrigado a trabalhar junto com um orc (Joel Edgerton) para evitar que uma poderosa arma caia nas mãos erradas.

Paul Verhoeven preencheu a década de 80 (se estendendo até a de 90) com filmes de ficção científica laqueados de sangue. Se por um lado ver Schwarzenegger arrancar dois braços de Michael Ironside com o vão do elevador era gratuito em Total Recall (O Vingador do Futuro), por outro ver ED-209 massacrar o executivo promissor na abertura de Robocop com setecentos tiros dava um tom de sátira mas ao mesmo tempo de perigo e pavor ao que eu via na tela. Verhoeven também traria o “R rating” ao excelente, novamente satírico e por muitos esquecido Starship Troopers (Barrados no Baile no espaço, digo, “Tropas Estelares”) com aracnídeos desmembrando sem piedade jovens de dentes perfeitos e sem uma espinha no rosto.

Nessa época, os estúdios não haviam descoberto ainda a força que a garotada de 12 a 16 anos trazia às bilheterias. Nessa época, ainda era possível despejar orçamentos de superproduções em filmes que nenhum(a) adolescente de 17 anos sem um responsável acompanhante pudesse entrar no cinema (R = Restricted, ou seja, restrito a todos(as) os menores de 17 anos). Um dos últimos suspiros dessa época se deu com fechamento em chave de ouro: Matrix, em 1999.

De lá pra cá, até vi as continuações da saga de Neo com os robôs sentinelas mutilando a resistência de Zion em 2003, mas a verdade é que os estúdios não mais admitiam um “R rating” com orçamentos de 3 dígitos na casa dos milhões.

Isso fez um cinema pra lá de amenizado que me trouxe muita estranheza: Alien vs. Predador, bem como os remakes dos já mencionados Total Recall e Robocop. James Cameron abre mão da violência de Aliens, Exterminador do Futuro II e True Lies para me entregar um Avatar esplendoroso e com uma batalha titânica em Pandora, porém branda em se tratando do que poderia ser mostrado na tela. Christopher Nolan passa toda a psicopatia do Coringa fincando um lápis em um capanga sem uma gota de sangue. E Peter Jackson recorre ao sangue preto dos Orcs (que por vezes são até decapitados) em sua trilogia do Anel. Tudo bem, são recursos que o cineasta usa… mas absurdo máximo foi ter que assistir a John McLane em Duro de Matar 4 e 5 – as versões teen – sem sequer um “Yippie-ki-yay, motherfucker!” decente, pois abafaram o palavrão com som de tiro. Tudo bem, eu sei que Duro de Matar não é sci-fi, mas a estratégia de tornar o “R” em censura “PG-13” também me indignou aqui.

Não estou querendo enganar ninguém: os filmes violentos de sci-fi não foram embora, mas todos tinham orçamentos bem mais modestos, vide Splice, Sunshine, Pandorum, Looper, Ex-Machina e até Predadores de 2010. Em 2009 Neil Bloomkamp, com 30 milhões de dólares, faz Distrito 9. Uma crítica ao apertheid sul-africano (de onde o filme veio, aliás) com alienígenas chegando a Joanesburgo na década de 80 e sendo relegados à casta inferior da sociedade. Roteiro, edição, efeitos… e violência digna de “R”. E o filme é indicado a 4 estatuetas do tio Oscar. Com bem menos impacto, repete a dose em anos seguintes com Elysium e Chappie.

Claro que podemos falar de outros, inclusive com orçamento bem inflado: Zack Snyder com 300 e Watchmen, e Ridley Scott com a expansão do universo Alien com Prometheus e Covenant. E se Deadpool e Logan lá pelos lados de super-herói provaram algo, é que não é só censura “PG-13” que faz encher cinema. Mesmo assim, dificilmente veremos outro Exterminador do Futuro II, filme mais caro da história até aquele momento, e com um belo “R”.

Seria então a vez dos filmes da Netflix e serviços similares? A popularidade estrondosa de The Walking Dead e Game of Thrones se dá, entre outros fatores, pelo seu nível de violência. Não necessariamente gratuita, mas como algo que ajuda a contar a história de uma forma mais impactante. Afinal, Negan não seria tão temido e odiado/amado se não tivesse promovido o encontro de Lucille com Glenn. E acham mesmo que o Montanha iria intimidar tanto assim se não mostrassem o que fez com a cabeça de Oberin?

É aí que entra Bright, que estreou neste Natal de 2017. Um quê de Robocop em um futuro distópico, uma dose (forte) de fantasia, não só pela presença de Orcs e Elfos, mas também de magia, e Will Smith à frente do longa, fazendo possivelmente o que faz melhor: o tira.

Mas dessa vez ele não é um dos Bad Boys que faz piadinha a cada 5 minutos intercalados por mais 5 pela câmera lenta girando ao por do sol de Michael Bay. Smith está em um mundo criado por David Ayer numa Los Angeles que desperta a curiosidade a cada cena nova em suas quase 2 horas de duração. Esqueça a desgraça de “Esquadrão Suicida”: aqui, Orcs moram em guetos, Elfos têm sua própria Beverly Hills. Fadinhas são como mosquitos, pestes que atormentam as casas. Ao fundo, eu consigo ver um centauro com colete da polícia, um dragão voando acima da cidade, tudo compondo esse universo. E, no meio disso tudo, os humanos.

Só que é o linguajar pesado, com um “fuck” proferido a cada 2 minutos, a cocaína, a prostituição e nudez, o sangue jorrado a cada tiro que impacta que dá o tom do filme. É essa violência crua, suja, que fez com que eu ficasse ligado no “realismo” do espetáculo (até certo ponto, afinal, se porrada de cano de ferro e chute na barriga só fazem sangrar e inchar, é porque dá para o herói aguentar, né?). Mas, de fato, a dupla que Smith faz com seu parceiro Orc (interpretado muito bem por Joel Edgerton) não parece ser a tradicional “buddy-cop” invencível. De fato, você se importa com o destino dos dois, se preocupa em saber se irão ou não sobreviver à montanha-russa de eventos que se desdobra ao longo de uma noite.

Uma pena: a resolução é fraca nos últimos 25 minutos. Queria saber mais sobre os antagonistas. Queria saber mais sobre tudo o que está por trás das diferentes raças. E não precisava da chuva de piadinhas no desfecho, como se quisessem compensar pela seriedade mostrada no resto do filme. A premissa é melhor que a execução? Sim, é! Podia haver menos magia e simplesmente mais características de cada criatura? Também! Mas o filme me deixou com aquele gostinho de “quero mais”.

Los Angeles e seu R-rating de Bright me trouxeram curiosidade e medo de que os protagonistas “fossem pro saco”. E com uma nostalgia das grandes produções violentas de Verhoeven – aquelas mesmas que me deixavam de boca aberta pensando: “Putz, olha o que fizeram com o cara… ! Agora f… de vez!”

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