(Detroit), de Katheryn Bigelow.
Com John Boyega, Anthony Mackie, Will Poulter, Algee Smith, Jack Reynor, Jacob Latimore, Hannah Murray, Jason Mitchell e John Krasinski.
No ano de 1967, Detroit vive cinco dias de intensos protestos e violência. Um ataque policial na cidade resulta em um dos maiores tumultos na história dos Estados Unidos, levando à federalização da Guarda Nacional de Michigan e ao envolvimento de duas divisões aéreas do Exército americano.

Uma viatura ultrapassa um ônibus. Alguns longos segundos passam até que de dentro do ônibus as pessoas se deem conta de que, na verdade, o ônibus está sendo perseguido pela polícia. De dentro do carro, um policial grita para que o motorista encoste. Dentro do veículo a tensão e sensação de surpresa são quase tangíveis, já que a viagem transcorria normalmente. O ônibus encosta e, imediatamente, 2, 3 viaturas o cercam. Diversos policiais se posicionam em postura ofensiva apontando suas armas enquanto dois deles sobem, um pela porta da frente e o outro pela porta de trás. Gritando de forma agressiva um dos policiais manda que três homens desçam do ônibus. Ele ordena que eles coloquem as mãos na carroceria do ônibus e abram as pernas. Os três homens eram os únicos negros.

Essa cena poderia facilmente pertencer ao filme Detroit em rebelião, mas aconteceu horas depois de eu ter assistido ao filme e os três homens estavam sentados imediatamente atrás de mim. Rio de janeiro, 27 de Setembro de 2017, Serra Grajaú-jacarepaguá, por volta de 10 da noite.

Pela janela meus olhos encontram os olhos do jovem que está do lado de fora com as mãos no ônibus, logo abaixo da janela onde estou sentada. Em silêncio, somente com os lábios, eu digo pra ele que sinto muito. Com olhos que me parecem tristes ou envergonhados ele me dá um meio sorriso e dá de ombros, como quem diz “Assim são as coisas”.  Sinto vergonha, por muitos motivos, e tristeza.

Queria que o mundo inteiro soubesse e fizesse alguma coisa, que as coisas não fossem assim, claro que eu queria. Mas a verdade é que eu não senti o que eles sentiram e nunca vou sentir. Nunca vou me preocupar ou ter medo, por ser o único negro dentro de um ônibus, por ser o homem negro andando numa rua escura; jamais vou ser perseguida dentro de um shopping por seguranças, ou serei constrangida ao entrar em uma loja; dificilmente serei assassinada dentro de um carro pela polícia na frente da minha família “por engano”.

Há muitas outras grandes e pequenas coisas pelas quais passam os negros no nosso país e ao redor do mundo que eu nunca vou saber como são, porque como ouvi uma vez, sou uma mulher branca de classe media e estou no topo da cadeia alimentar dessa sociedade cruel em que vivemos. Jamais serei capaz de explicar como eles se sentiram; ou o quanto isso os afetou; ou como isso já faz parte da rotina deles; ou como eles tiveram que aprender desde pequenos a nã responder ou reagir, não de forma genuína.

O ônibus seguiu viagem sem esses homens e eu voltei pra minha casa e pra mim a historia chegou ao fim, mas para eles está muito longe do fim, já que (dando de ombros), assim são as coisas.
Existem muitas coisas que separam as realidades e vivências dos brancos e negros na sociedade e por mais empatia que tenhamos, nós brancos, jamais seremos capazes de dar conta de tudo que isso significa, der perceber todas as pequenas crueldades e formas de opressão, principalmente enquanto sentimento. Talvez a isso se deva a série de equívocos cometidos por Kathryn Bigelow na construção dessa história. Há nuances que separam nossos olhares, ainda que empáticos, sobre certas situações e isso se revela muito nitidamente no filme, mesmo pra mim. E, como certezas, há muitas coisas que eu sou incapaz de perceber.

Apesar de o filme possuir, na sua cena inicial, uma introdução que resuma, tentando explicar, como chegamos aonde chegamos, isso sendo 1967. E, ainda que, a construção da cena da batida policial que “dá origem” a rebelião, funcionando como um estopim seja, de fato, o retrato de uma ação injustificável e que utiliza de força acima do necessário, algumas coisas importantes ficaram de fora. Falta acima de tudo sentimento. Falta o sentimento de acúmulo, de cansaço, de revolta. Faltou a sensação de que aquele acontecimento não era uma resposta desmedida a uma ação isolada, mas o reflexo de uma vida de opressão, exclusão, perseguição e morte.

A maneira como o início da rebelião se dá, com pessoas rindo, bebendo, saqueando, me pareceu inclusive desrespeitoso àqueles que sofrem diariamente as consequências de nossa estrutura racista e segregadora e, assim em detalhes, desmerecendo o real motivo de tudo. A construção é feita intercalando com áudios e imagens reais, que aparentam corroborar ainda mais para a visão midiática de que essas rebeliões são causadas por umas poucas pessoas, baderneiros, anarquistas e vândalos. E, inclusive, esses acontecimentos, repercutem negativamente e causam prejuízo aos próprios negros, como acontece com o personagem Larry, vivido por Algee Smith, que perde a oportunidade da sua vida por causa da rebelião.

Apesar de tecnicamente ser um filme muito competente e das aparentes boas intenções da diretora, de expor a realidade e crueldade do racismo, o constante maniqueísmo da visão de Bigelow, presente também em outros de seus trabalhos, faz com que o filme acabe sendo limitado e impreciso em muitos momentos.

O policial Krauss (nome alemão), personagem de Will Poulter é a personificação do mal e tudo, todas as piores ações perpetradas ao longo do filme são exclusivamente cometidas ou influenciadas por ele, enquanto os outros brancos na tela são “vítimas” de sua influência, são indiferentes ( não que isso não seja um problema) ou estão contra os seus abusos.

Essa abordagem, focando em UM personagem mal, retira o peso da questão social, do quanto todas essas questões estão em todos nós, minimiza o fato de que a polícia e nós todos somos racistas, ainda que gostemos de acreditar e dizer que não, isso está na nossa estrutura, enraizado e não está restrito ao comportamento de um homem ou uma situação isolada. Mas está também no fato de que quando aqueles três homens negros entraram no meu ônibus e eu era a única pessoa sentada na parte de trás, eu guardei meu celular e quando a policia parou o ônibus, eu imediatamente pensei neles. O fato de eu sentir muita vergonha por isso não muda a realidade do racismo que existe em mim.

É doloroso e revoltante ver na tela a maneira como os acontecimentos se desenrolam, a maneira como a justiça se porta e é manipulada para privilegiar os opressores e manter a estrutura de opressão. É desesperador ver aqueles jovens sofrendo aqueles abusos, sendo torturados. Situações que nós como brasileiros, mais ainda como cariocas, conhecemos tão bem, mas ainda assim optamos por distanciar da nossa realidade classe média. E, assim como acontece no filme, optamos por nos revoltar seletivamente, já que, consideramos absurdas as ações policiais, por entendermos que os jovens presentes e envolvidos não eram de fato bandidos e não estavam envolvidos na rebelião, mas eram pobres coitados vítimas das circunstâncias, causadas pelos próprios negros, inclusive um dos jovens presentes na casa.

Mas como seria caso fossem bandidos? E se estivessem envolvidos na rebelião? E se possuíssem armas pra lutar de igual pra igual contra aquilo que os agride diariamente? Nossa revolta seria a mesma? Nossa indignação seria a mesma? Ou acharíamos que eles tiveram o que mereceram por serem bandidos e vândalos? Eles perderiam o direito de serem tratados com justiça e respeito?

É importante que o cinema dê esse passo e conte essas histórias, mas é também importante que essas histórias sejam contadas com muito cuidado, para que não acabem reproduzindo os mesmos estereótipos ainda que, supostamente, inconscientemente e repletos de boas intenções. Para que a própria história quando contada não culpe, mais uma vez, os oprimidos, justificando em pequenos detalhes a opressão sofrida. E que a revolta que causa não seja, também mais uma vez, seletiva.

È importante que consigamos entender que algumas coisas estão além do nosso alcance. Além da nossa compreensão. É importante que saibamos, como muito pede o movimento negro, reconhecer o nosso lugar de fala pra evitar cometer “equívocos”, como os de Bigelow e dos diversos críticos, homens e mulheres brancos de classe media, que como eu, aqui nesse texto, nos posicionamos a respeito de coisas que estão além do nosso alcance.

Patricia Costa

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