As previsões de que a cerimônia da 75ª edição do Globo de Ouro, realizada na noite de 7 de janeiro, seria marcada pelo tom político não foram capazes de abarcar o quanto e em quantos pequenos momentos e detalhes poderíamos ver os sinais do que parece, de fato, ser a chegada de “um novo dia que desponta no horizonte” (Oprah Winfrey).

Essa é a primeira grande premiação desde que os escândalos sexuais envolvendo poderosos homens de Hollywood invadiram, não só as notícias, mas viraram motivo de assombro e debate nas vidas de todos que tem alguma relação com o cinema.

O caráter de manifestação se desenhou antes mesmo do tapete vermelho, quando, em protesto, as mulheres confirmaram um código de vestimenta All-in-Black (Todas de preto), que foi seguido também pela maioria dos homens. De acordo com os correspondentes, que faziam a cobertura jornalística do evento, era possível contar nas mãos o número de pessoas que não havia aderido.

Ainda no tapete vermelho Debra Messing deixou claro que a noite seria bem diferente e que as mulheres não vão mais simplesmente falar sobre quem ou o que estão vestindo. Ao invés disso, ao ser entrevistada pelo E! (Entertainment Television, canal de variedades), ela expôs o próprio canal, ao abordar a polêmica saída de Catt Sadler que costumava ser apresentadora, mas que deixou a emissora em dezembro após descobrir que o seu companheiro de bancada ganhava quase o dobro do que ela para fazer, praticamente, o mesmo trabalho.

Assista aqui o vídeo da entrevista de Debra Messing para o E!

No discurso de abertura Seth Meyers abordou diretamente as questões de abuso sexual e fez piadas sobre Harvey Weinstein, Kevin Spacey e Woody Allen. A maneira como os acontecimentos seriam abordados pelo apresentador eram uma incógnita e ele não desapontou, indo direto ao assunto. Um dos pontos altos ficou por conta da recriação de um dos quadros de seu programa, “Piadas que Seth não consegue contar”, em que se abordou uma serie de situações que envolviam abuso e machismo, em que o melhor momento ficou por conta de Amy Poehler e sua performance sobre “mansplaining”.

O Prêmio Cecil B. DeMille homenageou Oprah Winfrey, celebrando suas conquistas ao longo da careira. Ela recebeu o prêmio com um belíssimo e emocionante discurso cheio de referências a importância da representatividade e do empoderamento, não só feminino, mas negro. Foi, talvez, o momento mais emocionante da noite e os convidados a ovacionaram de pé.

Outro grande momento foi a presença de Barbara Streisand para entregar o prêmio de melhor filme de drama. Ela ressaltou o fato de ter sido a única mulher a ganhar o Globo de Ouro como melhor diretora e isso em 1984, por Yentl, e cobrou que mais mulheres sejam celebrados por seus projetos. Momento em que, curiosamente, Greta Gerwig, cuja ausência na lista de indicados a melhor direção foi sentida e criticada, foi focalizada.

A crítica de Barbara Streisand veio depois de Natalie Portman deixar o salão inteiro desconcertado, ao acrescentar duas pequenas palavras, “All-Male” (Todos Homens), ao anunciar os candidatos de melhor diretor.

Os principais prêmios da noite envolviam histórias de mulheres fortes na sua diversidade. Big Little Lies (Melhor minissérie ou filme para TV); Handmaisd’s Tale (Melhor série de Drama); The Marvelous Mrs. Maisel (Melhor série de Comédia ou Musical); Lady Bird – A Hora de voar (Melhor filme de comédia ou musical); Três Anúncios Para Um Crime (Melhor filme de Drama) e, até mesmo, A Forma da Água, que deu o prêmio de melhor diretor a Guillermo Del Toro. Todos, falam, cada um à sua maneira, sobre a força e a importância do tão celebrado empoderamento feminino.

O Globo de Ouro deixa uma gostosa sensação de que talvez, ainda que tenhamos muitas conquistas e mudanças pela frente, estejamos presenciando a história acontecer.

Patricia Costa

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