O frio na barriga, o jeito como despretensiosamente fingimos não nos importar, a maneira como nos colocamos nos lugares e situações propositalmente para estarmos perto do objeto do nosso afeto, a ansiedade. São tantos pequenos gestos e detalhes envolvidos no conjunto do que definimos como se apaixonar, que parecem impossíveis de reproduzir ou retratar com exatidão, já que na verdade, não sabemos muito bem explicar como nada disso acontece.

Armie Hammer é o Jovem Oliver, que vai passar o verão no norte da Itália, em 1983, onde vai ajudar o pai de Elio, Timotheé Chalamet, como pesquisador assistente. A intimidade entre eles cresce enquanto passam o verão aprendendo coisas um sobre o outro e acabam aprendendo muito sobre eles mesmos.

Apesar da diferença de idade entre eles, existe uma afinidade intelectual, já que Elio, apesar de ter 17 anos, possui uma maturidade além do seu tempo, não no que diz respeito a experiências de vida, mas ao seu conhecimento de artes, literatura e música. O que faz com que a afinidade entre eles faça todo o sentido.

Me chame Pelo Seu Nome, é um filme que resgata em nós aquelas sensações inebriantes de se apaixonar enquanto buscamos sinais de que a outra pessoa sente o mesmo. Sentimentos que são marcantes, principalmente, no primeiro amor, onde tudo é descoberta.

No cinema, as histórias de amor e as comédias românticas, existem aos milhões, mas, apesar de terem uma espécie de fórmula, que nos mostra como os romances acontecem e de até, eventualmente, nos levarem as lágrimas, poucos são os que, de fato, nos fazem sentir. E Luca Guadagnino, faz um trabalho primoroso ao contar essa história nos dando a oportunidade de olhar para além dos sentidos normalmente explorados no cinema e além de ver e ouvir, também nos possibilita sentir.

A maneira como o filme é desenvolvido foge um pouco do que se espera tradicionalmente de uma história sendo contada cinematograficamente. É tudo construídos de maneira bastante peculiar e propositalmente lenta, assim como a construção do relacionamento deles, dando a sensação, não de estar assistindo a um filme, mas de estar ali, como uma das mosquinhas, dentre tantas presentes na história, presenciando momentos de intimidade, de ócio, de silêncio. Um exercício de observação que parece nos sugar para dentro, não só dos momentos vividos, mas das emoções sentidas.

E esse movimento está na fotografia, na edição e mixagem de som, na escolha por nos colocar diante de cenas, quase monótonas, de Elio estudando piano, ou simplesmente nadando no rio, aguardando, esperando pelos momentos de intimidade. O filme se utiliza do tempo para contar a história, inclusive causando desconforto e angústia, explorando a sensualidade, o prazer da antecipação. Somos capazes de sentir com eles a ansiedade, a expectativa. Quando nos apaixonamos, principalmente da primeira vez, muito é expectativa e construção e o filme nos dá isso. O tempo de construir essa relação e realmente e retrata as incertezas e reflexões sobre ter ou não algo acontecendo mas que passos seguir.

Armie Hammer e Timotheé Chalamet possuem muita química e o trabalho de Hammer como o homem mais velho, que se envolve emocionalmente com um adolescente, é muito delicado e feito com muito bom gosto. Inclusive, no segundo ato, Acabamos percebendo que Oliver é o mais vulnerável dos dois.

Mas Timothéé Chalamet é uma deliciosa surpresa. Cada olhar, cada pausa, cada rompante precisamente colocado nesse menino descobrindo sua sexualidade e seus limites. A linha entre o jovem inteligente e maduro e o nítido transparecer de sua imaturidade.

E, apesar do filme ser bastante gráfico em alguns momentos e de algumas pessoas estarem até se referindo a ele como um tanto erótico, é tudo feito de maneira muito delicada.

Existe uma veracidade tocante nas relações e nos diálogos, não só entre os protagonistas, mas entre todos, principalmente na relação de Elio com os pais. Sendo uma conversa que Elio tem com o pai, o momento mais bonito e tocante do filme.

A paixão, o verão, e até as moscas têm algumas coisas em comum e o desfecho nos ensina algumas grandes lições sobre o tempo, sobre intensidade, sobre escolhas e, principalmente, sobre o amadurecimento.

Patricia Costa

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