“Onde está coberto por todas as luzes coloridas
Onde os fugitivos estão comandando a noite
O impossível se torna realidade
Está tomando conta de você
Este é O Grande Show”
(This is the greatest show)

 

A letra da música que introduz a história parece descrever o fenômeno que é assistir ao Rei do Show, fenômeno esse, que têm contagiado muitas pessoas e que, contrariando as expectativas dos críticos, é um sucesso de público.

É difícil assistir ao filme sem ter vontade de sair por aí vivendo como se a vida fosse um musical. É quase como se, imediatamente, saíssemos do cinema acreditando sermos exímios dançarinos e cantores, contagiados pela energia das cores, das luzes, da alegria, da superação de seus personagens.

Apesar de um olhar romântico dos idealizadores para sua história, P.T.Barnum, em si, vivido por um Hugh Jackman nitidamente inspirado e apaixonado pelo personagem, foi um homem complexo, com um início de carreira questionável, que envolve a exploração de uma mulher escravizada, considerada seu primeiro grande ato.

A romantização do personagem tem sido questionada, mas, aparentemente, anos depois ele se posicionou firmemente contra a escravidão. Seu lugar como visionário, precursor do show business, com uma visão de mercado e entretenimento que atingia as massas em um tempo que balés, teatros e espetáculos de forma geral eram elitizados e restritos aos nobres e ricos, é inquestionável. Como pessoa é incerto como definiríamos o seu caráter.

O despertar para uma vida nos holofotes, de um grupo de pessoas que vivia às margens da sociedade, é inspirador. Quem nunca se sentiu como se não fosse bom o suficiente? Quem nunca se escondeu por se achar inadequado? Ou odiou alguma parte do seu corpo? Ou teve vergonha de si mesmo, simplesmente por ser assim, como é? O momento no filme em que Keala Settle, com mais de 13 anos de sucesso como artista da Broadway, canta a música, “This is me”, vencedora do Globo de Ouro de melhor canção original, é eletrizante e impele o público a levantar e dançar, já que a letra da música, ressona como um hino, a ser entoado e celebrado. A dupla de compositores Benj Pasek e Justin Paul, também responsáveis pela trilha de La La Land, parece possuir alguma fórmula mágica com que suas musicas arrebatem o público.

Apesar do difícil começo, o musical foi subindo no apreço do público e têm se mantido nos cinemas, batendo alguns recordes; já é o terceiro maior musical original da história, ficando atrás apenas de Encantada (Enchanted, 2007) e La La Land (La La Land, 2016). O filme é um grande sucesso, principalmente, com relação à performance das músicas, que além de ganhar prêmios, tem se mantido no topo dos principais rankings mundiais, não só como trilha, mas também, com algumas faixas ganhando destaque individualmente.

As músicas são muito mais modernas do que jamais poderiam ser, se precisamente dispostas no tempo em que o filme tenta retratar, mas parecem combinar com a ideia que o filme transmite de P.T. Barnum, um homem a frente de seu tempo.

A superficialidade com que todas as questões são abordadas pelo filme, fazem com que o enredo em si, seja o ponto fraco. Os conflitos são rasos e causam pouca comoção. Até mesmo as questões que envolvem os enjeitados, e o preconceito e discriminação que sofrem, tudo isso, passa bem despercebido e sem ser muito explorado, deixando o filme com uma áurea mais leve e sem muita profundidade.

Nem mesmo o suposto transgressor romance entre Zack Efron e Zendaya, é capaz de gerar muita emoção, mas o dueto e=interpretado é simplesmente mágico.

A direção, do estreante Michael Grace, é, nitidamente repleta de paixão, e assim como os demais envolvidos, é possível perceber o quão empenhado e investido ele estava. Apesar do fato de que, colocar o espectador como alguém presente nas fileiras, assistindo ao espetáculo, é interessante, o filme perde em potencial, já que visualmente, tudo seria possível cinematograficamente. As cenas não possuem muita profundidade e os números musicais, que são incríveis, parecem de fato ter sido filmados por alguém na plateia, deixando o filme pouco inventivo, sendo um enorme desperdício.

A dedicação dos atores e seu envolvimento e engajamento no projeto do filme, que levou anos para ser realizado/, reverbera na energia do filme e é cativante, sendo fácil entender como o filme tem atravessado o crivo negativo das críticas. A mensagem é clara e tocante, o musical é visualmente deslumbrante, com figurinos e design de produção impressionantes, e as músicas, nossa, as músicas, são cativantes e acompanham a gente, ouso dizer que semanas, após vermos o filme, dando o tempo todo aquela vontade rever os números musicais, que são o grande destaque do filme, e sair cantando e dançando pelo mundo.

Patricia Costa

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