The Post: A Guerra Secreta

The Washington Post era um jornal, que existia desde 1877, mas apesar de consistente, tinha pouca expressividade. Foi somente na década de 70 que viveu os momentos que mudariam o rumo de sua história. Depois de ter caído nas mãos de jornalistas do New York times um estudo solicitado por Robert McNamara, o então secretário de defesa, sobre a história do planejamento interno e as políticas nacionais Norte-americanas sobre a guerra do Vietnã, considerada uma das maiores derrotas militares do EUA, o conflito durou mais de 20 anos, com cerca de 60.000 americanos mortos e mais de 300.000 feridos.

A publicação dos documentos gerou uma reação agressiva do Presidente Nixon, o time foi processado e qualquer publicação dos papeis feita por eles embargada.

O post tinha então uma decisão a tomar: Buscaria os papéis? Os publicaria? Uma decisão que na época, poderia destruir por completo a empresa que dependia da aprovação de investidores em sua abertura ao mercado.

Steven Spielberg teria se apaixonado pelo roteiro e, com seu último filme Jogador Número 1 entrando em pós-produção, ele mergulhou rapidamente no projeto. Acreditando em sua extrema relevância para os dias de hoje, principalmente, com os constantes conflitos envolvendo Donald Trump e suas tentativas de cercear e controlar a mídia. Assunto que ganhou destaque nos últimos tempos.

Muitos tem perguntado se The Post é sinal de Spielberg voltando a velha forma, depois de alguns filmes terem recebido críticas não tão positivas, como O Bom Gigante Amigo, que foi uma espécie de fracasso.

Existe uma coisa que é muito característica de Spielberg que é bem nítida nesse filme, que é a capacidade de ir além, um olhar que além de esperto tem alma e coração. Os filmes de Spielberg são movidos pelo sentimento e costumam ter grandes momentos, cenas grandiosas, que resumem isso, os tornando marcantes. Aquele momento em que olhamos e pensamos “Esse filme é do Spielberg”

Há um enorme mérito em se contar uma história real, a qual todos conhecem o desfecho e, ainda assim, ser capaz de inserir tensão, fazer com que o público fique na expectativa e torça e vibre com o desenrolar da história. A opção em direcionar um grande tempo para a produção física do jornal, também deixa o filme interessante e as cenas são belíssimas, dando um ar ainda mais realista.

O primeiro ato, que tem sido criticado, por ser lento demais, ao meu ver é crucial para que o filme se diferencie e não seja apenas mais um representante do gênero. Em tempos de “Time is up” e luta feminina de conquista de espaço e respeito, não só em Hollywood, mas ao redor do mundo. Ele toma o tempo necessário para acompanhar Katherine Graham, a dona do jornal, que depois de anos em sua família, chega as suas mãos com a morte de seu marido. Ele apresenta as questões dessa personagem e o mundo em que ela está inserida. Informações cruciais para causar maior impacto a medida que a tensão aumenta, pois percebemos tudo que está em jogo.

O coração do filme e a marca do diretor, estão nessa mulher que é brilhantemente interpretada por Meryl Streep em cada sutileza, na insegurança percebida na voz, na linguagem corporal, no olhar, até em fim se empoderar e ocupar o lugar que é seu de direito. Uma mulher num universo extremamente masculino, sem voz, sujeita aos desmandos daqueles que, a princípio, assim como ela, não acreditam que aquele é seu lugar. Assistir essa transformação da personagem talvez seja tão relevante quanto a questão jornalística, uma vez que na construção da história elas caminham juntas, não por acaso.

A química entre Tom Hanks e Meryl Streep é excelente e o ator se sai bem no papel, como sempre, apesar da responsabilidade de dar vida a Ben Bradlee, personagem que ficou marcado pela interpretação de Jason Robards, em todos os homens do presidente, considerado o mais icônico filme do gênero.

O filme não é perfeito, mas por maiores que sejam as críticas a algumas escolhas do diretor, nada parece por acaso, quem sabe até, mimetizando um pouco o que tem acontecido em Hollywood nos últimos tempos. Em um mundo masculino cabe a uma mulher encontrar sua voz e tomar a decisão que mudaria o rumo da história, não só do seu jornal, mas do país, já que após o incidente a guerra chegaria ao fim, por volta de dois anos depois.

Patricia Costa

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