“Todo coração canta uma canção, incompleta, até que outro coração sussurre de volta. Aqueles que desejam cantar sempre encontram uma canção” Platão

Elisa trabalha na limpeza de uma instalação do Governo na década de 50, onde coisas estranhas começam a acontecer.

Guillermo Del Toro arrebata o espectador nos primeiros minutos de filme, com um mergulho na vida desta mulher. Em sua rotina e em suas relações. Ele nos convida a entrar no seu universo e o tempo que leva para nos encantarmos com ela e sua dinâmica, não só no trabalho, mas com seus amigos, é curto, então, quando por fim, nos introduz o que de mais estranho e secreto está acontecendo dentro desses laboratórios, já estamos mais do que envolvidos na história, fazendo com que tudo pareça se encaixar perfeitamente e a presença da “criatura” não parece, de forma alguma, absurda.

As relações são essenciais, não só para construir seu universo, mas no desenrolar da história e para ressaltar o quanto as nossas ausências nos definem e definem nossa existência. Elisa, a personagem principal, é muda e Sally Hawkins, vive e sente essa mulher em sua determinada jornada em busca de se completar e seguir seu coração. Cada emoção, dúvida, ironia, desespero, dor, prazer, tudo sem emitir uma única palavra. É uma interpretação emocionante, daquelas para aplaudirmos de pé. É incrível como todos os outros personagens possuem problemas de comunicação enquanto ela, se conecta e se expressa de forma fluida com o mundo que a cerca.

E, que mundo! Guillermo Del Toro é um gênio do design de produção e o que ele constrói em a forma da água é encantador. O filme é simplesmente belíssimo! Cada cena é uma obra de arte, uma pintura em tons de verde que remetem a água e cada detalhe é construído para encantar e envolver e faz isso perfeitamente. E a trilha é o toque final perfeito na criação do ambiente envolvente dessa belíssima experiência.

Os filmes do diretor são bem peculiares e a sua forma de explorar o universo da fantasia e inserir monstros em contextos construídos cinematograficamente de forma realista, principalmente na violência, não costuma ser para todo mundo, mas, como costuma acontecer com histórias de amor, a de Elisa, ultrapassa barreiras e é o filme mais acessível dele.

Há uma desconstrução da ideia de monstro que caminha com a figura do vilão, mas até isso é diferente nesse filme. O personagem de Michael Shannon é o responsável pela criatura e o vê, como se esperaria do vilão, como nada mais do que um objeto de estudo, porém, foge da simples dicotomia entre bem e mal, nos apresentando um personagem cheio de camadas, cujas justificativas para seu comportamento se desenrolam na tela e, apesar de não torcermos por ele, somos capazes de entender suas motivações.

Assim como o vilão de Michael Shannon, os demais personagens, que compõe esse universo, são importantes para dar a história mais profundidade. A Zelda de Octavia Spencer e o Giles de Richard Jenkins, são essenciais e suas atuações primorosas. Inclusive, suas subtramas, principalmente a de Richard Jenkins, são excelentes e acrescentam desdobramentos interessantíssimos à trama principal, sendo, em alguns momentos, de cortar o coração.

É possível perceber neles o quanto é difícil acessar esses buracos que existem dentro de nós, muitas vezes delimitados pela sociedade em que estamos inseridos que não nos permite ser inteiros, para atender a uma série de padrões de vida e de comportamento. É triste perceber o quanto limitamos nossa existência à esse mundo que nos cerca e, muitas vezes, passamos pela vida assim, fazendo tudo que devemos fazer e que se espera de nós, mas parece sempre que tem alguma coisa faltando, há uma sensação de incompletude, uma falta latente que nem sempre sabemos do que é.

Essa ausência existe de maneiras diferentes em todos os personagens e é o grande cerne do filme, como podemos preencher nossos vazios e como as pessoas e experiências que encontramos pelo caminho nos ajudam a encontrar o que precisamos para ser inteiros.

Patricia Costa

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