Quantas vezes ouvimos que as maiores belezas da vida se encontram nos detalhes. E são esses pequenos recortes de memória, esses detalhes da nossa existência e experiência, que carregamos para a eternidade, não só a nossa, mas daqueles que nos marcaram e, principalmente, dos que amamos.

Cada vez mais, os filmes, principalmente de animação e infantis, se preocupam em levantar assuntos importantes, sociais, muitas vezes profundos e, até mesmo polêmicos, que transformem a experiência, não só em diversão, mas, abertamente, carregando mensagens e aprendizados. Paddington 2 é um filme construído nos, muitas vezes, negligenciados detalhes, naquilo que, de fato, é importante.

Gratidão, amizade e bondade. Três simples valores que muitas vezes passam despercebidos, mas que são a base para formar pessoas de bom coração, gentis e empáticas. O ingênuo urso, carrega em sua história a importância de possuir essas características e o quanto elas são capazes de transformar o mundo ao nosso redor.

Paddington está enfim estabelecido em Londres com a sua nova família, os Brown, e apesar de ter sua rotina com novos amigos e uma casa nova e toda uma vida bem distante do Peru, o pequeno urso, não esqueça sua Tia Lucy. O aniversário daquela que deixou seus sonhos de ir à idade para cuidar do pequenino filhote perdido está chegando e ele sonha em encontrar para ela um presente perfeito. Ele sabe e é grato por tudo que ela fez por ele e acredita que tem que retribuir com o melhor que ele puder.

Ele então encontra um livro pop-up de Londres que, ao seu ver, é o presente ideal, pois será capaz de levar um pouquinho da cidade à Tia. O livro, porém, é uma edição muito especial e custa muito dinheiro, mas ele não desiste e se lança em uma série de trabalhos para tentar conseguir o dinheiro que precisa, garantindo momentos muito divertidos com gargalhadas garantidas nas desventuras do urso em busca de dinheiro.

O livro é então roubado por Hugh Grant, que vive um ator fracassado, que ganha a vida fazendo propagandas de comida de cachorro, mas sonha em voltar ao estrelato em um show só seu. O ator possui um santuário a seus antigos papéis, e conversa com si mesmo em um misto de egocentrismo e loucura, proporcionando ao filme um vilão bem desenvolvido e cheio de camadas. O timming de Hugh Grant para comédia é excelente e ele acrescenta momentos muito divertidos à história, principalmente em toda intertextualidade que remete à própria profissão de ator como fonte de piadas.

É muito comum em filmes infantis que o elenco adulto não se engaje tanto ou que simplesmente cumpra tabela nas produções, fazendo o básico de forma, muitas vezes, mecânicas, mas não nesse filme. O envolvimento e dedicação dos atores ao filme é nítido e isso faz toda a diferença. Um grande destaque fica para Brendam Gleesson, um improvável amigo do ursinho que tem uma participação impecável.

Paul king, que também dirigiu o primeiro filme, explora o olhar de Paddington e a inocência com que ele vê o mundo, sem que tenhamos aquela sensação de condescendência. O fato de que ele nem sempre entende as coisas ou tem problemas de comunicação não faz com que ele seja tratado de maneira inferior, sua inocência e seus valores são exaltados não fazem piada com as suas limitações, pelo contrário fazem dele um personagem encantador. O design de produção é belíssimo e parece possuir um quê um tanto encantador de Wes Anderson. O uso das cores faz com eu o filme seja interessante, vivo e aconchegante, um deleite visual

Outra coisa visualmente impressionante é a construção do Urso, é muito fácil esquecer que não estamos diante de um personagem real. Há uma fluidez nos pelos, um brilho no olhar, tudo perfeito na construção gráfica desse personagem que caminha entre humanos como se fosse de verdade de forma incrivelmente perfeita. Um dos melhores CGIs dos últimos tempos.

“Se você olhar pelo bem nas pessoas, você vai encontra-lo”, o ditado de tia Lucy, o acompanha e ele cria um senso de comunidade e quando, no desenrolar do filme, ele se ausenta de sua casa e das relações que construiu é nítido o impacto que faz a falta de um comportamento, um olhar positivo e simplesmente bondoso no dia-a-dia de todos que estavam ao seu redor.

A direção é sofisticada, inclusive nas cenas de ação, que na maior parte do tempo não parece que estamos de frente para um filme infantil. O perigo à que Paddington é submetido parece extremamente real, assim como são reais e até um pouco duras as lições que ele aprende, mas que não o colocam para baixo, pelo contrário, o fazem crescer, sem perder a ternura. É tudo muito bem elaborado, da comédia à ação é um filme extremamente envolvente e prazeroso de assistir.

Paddington 2 é surpreendente, com um design de produção lindo, personagens e mensagens bem construídos que nos divertem e emocionam na mesma medida. Não se surpreenda se você for levado as lágrimas. É uma experiência completa dessas pra curtir juntinho com a família.

Patricia Costa

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