O que não te mata…

Dizem que te fortalece. A história da patinadora olímpica americana Tonya Harding, quando você achar que vai corroborar com esse belo dito pró-meritocracia, vai pegar uma marreta e arrebentar as suas pernas, no caso, seus joelhos.

A história da atleta, que foi um escândalo nos EUA, serviu para corroborar com o desdém que a patinadora já recebia da mídia e até mesmo do próprio esporte, sem muito direito a defesa, a atleta foi dilacerada.

O filme parece querer acertar um pouco as contas, dando a Tonya a possibilidade de contar a sua versão da história. Em algum momento a personagem diz que: “A verdade não existe”, toda história tem muitas versões e esse é o caminho seguido pelo diretor, Craig Gillespie, usar as perspectivas diferentes dos envolvidos para dar forma ao que, a princípio, seria uma versão mais imparcial da história.

Esse passeio por versões completamente diferentes dos mesmos acontecimentos dá um bom ritmo à trama, fazendo com que fiquemos todo o tempo atentos, inclusive às contradições daqueles que estão dando seus relatos, já que quando contamos a nossa versão, principalmente, em se tratando de acontecimentos ruins, nada nunca é nossa culpa e queremos parecer o melhor possível nela. Assim o filme nos mantém grudados em seus movimentos, que, assim como os da patinadora, são rápidos e precisos.

Há uma dificuldade notável em se retratar pessoas públicas, maiores ainda quando elas ainda estão vivas. Margot Robbie é uma força em cena e parece transparecer o seu envolvimento e paixão pelo projeto, mas foi Alisson Janney quem roubou a cena. Cada aparição sua, na pele da mulher vil e egoísta, que é a mãe de Tonya, é um sorriso garantido, o que é surpreendente considerando a natureza e postura da personagem. Ela está impecável, com um ar despretensioso de superioridade de quem pouco se importa com nada diferente dela. Costumamos glorificar papeis em que os “vilões” são multidimensionais, mas LaVona parece não ter muitas mais camadas para além do egocentrismo, que acredita, inclusive que o que faz é para o bem.

A existência de Tonya Harding é marcada pelo abuso da mãe que naturaliza a violência, fazendo com que o relacionamento seja nada mais que uma reprodução, uma extensão daquilo que ela conheceu a vida toda. A complexa relação de dependência entre ela e o marido mostra que pra longe da meritocracia o ditado popular que melhor resumo “Eu Tonya” é “A gente aceita o amor que acha que merece”. Jeff Gilooly é vivido por um Sebastina Stan quase irreconhecível, não fisicamente, mas tão bem e a vontade no papel, que facilmente esquecemos que é ele.

O filme acompanha a trajetória da patinadora desde a infância. E, que história! Um relato pesado de abusos e desrespeitos enquanto ela tenta, sem sucesso, fazer não só o que ama, mas algo em que é excelente, se mantendo fiel a quem é. Olhando para a vida de Harding, a produção tem ainda mais mérito, por ser capaz de pegar todo esse sofrimento e essas situações que, apesar de parecerem absurdas e puramente à serviço da proposta cinematográfica, são muito mais comuns do que gostamos de acreditar, e fazer um filme extremamente divertido. No entanto, quando nos damos conta do quanto o que estamos assistindo, de fato pode ter acontecido como retratado, é possível nos sentirmos culpados por termos rido tanto.

O filme acaba sendo uma crítica ao Estados Unidos e sua cultura, que fabrica e destróis seus heróis, uma cultura que precisa, como disse Tonya Harding, de pessoas para amar e para odiar. E, o que a princípio era um relato, aparentemente neutro, acaba por possuir uma agenda de crítica social e cultural, sendo esse um dos maiores problemas da produção. O que fica claro, na tentativa de pegar o público pela mão, na construção dessa opinião favorável à patinadora, por exemplo, na escolha de músicas óbvias em momentos clichés que acabam por construir a atleta como vítima. Essas escolhas tem o efeito contrário ao esperado, deixando tudo um tom acima, com a sensação de estar se esforçando demais, o que fica exagerado e forçado, quando, possivelmente, a própria história se encarregaria de fazer isso, já que a realidade da vida de Harding é dura e tocante o suficiente para transmitir a mensagem de que estamos em uma sociedade que, na vida real não te dá oportunidades se você não se enquadra, mas te derruba.

Ainda que a politicagem por trás dos esportes não seja nenhuma novidade, a realidade é difícil de engolir. A constatação de que, assim como o filme, com sua mensagem não tão velada assim, tudo é política, tudo é imagem, é genuinamente triste e ver uma atleta do nível de Tonya Harding ser rejeitada por que os juízes querem, ou queriam, que as patinadoras sejam uma versão antiga e tradicional daquilo que uma mulher deveria ser, “bela, recatada e do lar”.

Esse ano, 2018, Mirai Nagasu, foi a primeira mulher americana, a realizar um Triplo Axel em uma Olimpíada, fazendo história. Esse é considerado um dos mais difíceis movimentos na patinação artística e só 8 mulheres realizaram o movimento em competições oficiais até hoje. Tonya Harding foi a primeira americana na história, garantindo seu lugar no livro dos recordes, a conseguir realizar o movimento em uma competição oficial e o fez em 1991, 27 anos atrás, mas não chegou a poder realiza-lo nas Olimpíadas.

São muitas as perguntas deixadas por “Eu, Tonya”, por que não poderia ser, simplesmente, sobre patinar? No caso de Harding nunca foi só sobre patinar, mas sobre o fato de que ela não representava a imagem que eles queriam transmitir, a imagem da perfeita família americana. Quantas Tonya Harding não fazem parte de uma história esquecida ou desconhecida, impedidos de viver seu talento, seus sonhos, por terem nascido no lugar errado, na família errada, por não corresponderem a imagem que se espera delas? Ficamos felizes por acreditar que são outros tempos, mas bem sabemos que a realidade caminha, muitas vezes, próxima a ficção.

Patricia Costa

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