O filme é baseado na história real de Jeff Bauman, que vai até a linha de chegada da Maratona de Boston, em 2013, para apoiar a então ex-namorada, que corria no dia. Jeff acaba sendo gravemente ferido no atentado terrorista, que matou 3 pessoas e feriu dezenas, deixando 16 sobreviventes sem alguns membros. Ele estava justamente no lugar da explosão e pode ver o terrorista, fato que mudou inteiramente sua vida de muitas maneiras.

Um homem perde a perna em um atentado terrorista e tem que recomeçar a sua vida. Parece a receita de mais um filme motivacional sobre uma pessoa em uma situação extraordinária que tem que ser, e vai ser forte para reencontrar o seu caminho e viver feliz para sempre, mas surpreendentemente, esse filme é muito maior que isso.

Uma vida simples. Um jovem “gente boa”, divertido, mas sem um senso grande de responsabilidade, que mora com a mãe, trabalha num mercado e não tem uma personalidade muito imponente para além do que parece ser um jeito leve e despreocupado de levar a vida, o que conquista os demais, por ser carismático.

Ele é uma pessoa como outra qualquer e sua vida simples, num apartamento pequeno, uma vida com limitações financeiras e emocionais. E esse é o grande diferencial desse filme. Não há nenhuma tentativa de transformar esse homem em um herói, ou de representa-lo de uma maneira que exalte a sua força ou o seu despertar para uma nova vida. É tudo muito próximo da vida real, situações que são, muitas vezes, até banais. Os personagens, as emoções, as dificuldades, nada parece saído de um filme, mas parecem recortes da vida real.

A dramaticidade está nos fatos, mais do que na construção. A emoção está na verossimilhança e isso fica explicito, por exemplo, na ausência de música em alguns dos momentos mais dramáticos, em que normalmente, em filmes desse tipo, subiria aquela trilha tocante para aumentar a sentimentalidade da cena, nesse filme, a música dá lugar ao silêncio e toda a carga emocional está no momento e na força das atuações.

Jake Gyllenhaal está muito bem em um papel que é agraciada por uma grande honestidade do roteiro quanto a quem é esse personagem, e em muitos momentos Gyllenhaal parece realmente estar ali, como se não estivesse atuando, inserido naquela vida, aprisionado em seus pensamentos, um personagem complexo que parece preso dentro de si, cuja irresponsabilidade e ausência de engajamento com si mesmo e com a vida faz com que em muitos momentos não gostemos muito dele, mas com quem nos identificamos por o quanto daquilo tudo parece real, muitas vezes pensando “Deve ser exatamente assim” ou “Como será que eu ia me comportar nessa situação?”

Tatiana Maslany também está muito bem como Erin, a namorada que apesar de gostar muito dele tem muita dificuldade de lidar com a maneira que ele encara a vida. Todo o elenco de apoio, com enorme destaque para Miranda Richardson Como Patty, mãe de Jeff, ajuda a criar uma sensação de autenticidade nas relações familiares com personagens que são as vezes chatos, as vezes falastrões, que falam alto e são sem noção, mas que transpiram amor e vontade de ajudar, como seria um retrato mais próximo de uma família real.

Mas apesar das tentativas, muito bem-sucedidas, em muitos momentos, de fugir dos clichés desse tipo de história o filme se usa de um arcos tradicional em sua construção deixando a sensação de que poderia ter sido muito melhor, já que os detalhes e pequenos momentos, que são tão marcantes no desenrolar do filme, funcionam tão bem.

Mais do que qualquer outro país o Estados Unidos, como nação, tem essa necessidade de fabricar heróis, pessoas públicas nas quais muitos se espelham e que utilizam como exemplo de força e garra, pessoas que admiram e aplaudem como se fossem seres superiores e suas existências se resumissem ao momento que os levou à esse patamar. Há nesse filme um cuidado com a desconstrução dessa ideia, abordando a dificuldade de lidar com toda a atenção recebida de repente e o impacto que isso tem na vida de uma pessoa.

De repente o jovem, Jeff Bauman, era não mais apenas um sobrevivente, era também um herói, mas continuava sendo a mesma pessoa, sem muita força vital, como antes, com as mesmas questões, só que agora tinha que lidar com o descobrir dessa sua nova condição de vida e também com o fato de sua vida não ser mais só dele.

Existe todo um universo que acontece dentro da gente e muitas pessoas exteriorizam uma parte muito pequena daquilo que se passa em seu infinito particular. “O Que Te Faz Mais Forte” explora a busca por se conectar com quem somos à medida que a vida acontece, não só reajustando as nossas trajetórias, mas as vezes nos descobrindo por inteiro e aprendendo viver, como nunca antes, entrando em contato com nossos sentimentos e emoções, encarando de frente nossos medos e dificuldades. E Isso requer uma força imensa, porque como disse Fernando Pessoa, na voz de Álvaro de Campos, “Ser Forte é ser capaz de sentir”.

Patricia Costa

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