Ser humano inclui ter uma compreensão de “ser”, de possuir identidade, de ter consciência do que nos define como grupos e indivíduos, abarca a necessidade de compreender à que pertencemos, qual o nosso lugar no mundo, nosso propósito. Essa busca por ser aceito e por encontrar no mundo aqueles com quem nos identificamos e que nos fazem sentir seguros e compreendido.

Mas esse entendimento de quem somos e essas barreiras que nos definem e limitam, não só o lugar que ocupamos, mas a maneira como o mundo funciona são tênues. Tanto, que tudo pode mudar com um simples aceno de uma pessoa inesperada, com um sorriso encantador, uma mão estendida, um gesto de boa fé, até mesmo uma palavra fora do lugar ou quem sabe um olhar na direção errada. É curioso como são frágeis essas nossas certezas e definições.

Porém, uma vez que mudamos nossa percepção do mundo, nossa perspectiva, e que esses pequenos ou grandes momentos e gestos nos levam para longe do universo que uma vez acreditamos ser o único que existia, fica quase impossível encontrar o caminho de volta e se encaixar quando você não é mais o mesmo, mas tudo parece continuar no mesmo lugar e isso parece ser o mais difícil, como tentar caber numa roupa que já não te serve mais.

Jamie McAllan e Ronsel Jackson representam em muitos níveis essas transformações que sofremos, e presos nesse universo em que não se reconhecem mais buscam um no outro novo significado nas suas existências e a amizade e o encontro deles como iguais em um universo moldado nos detalhes para distanciá-los é comovente. Há uma veracidade nas relações, percebidas no olhar, nos gestos. A química entre eles é tão verdadeira que é tocante. Garrett Hedlund e Jason Mitchell possuem uma química incontestável e os diálogos e momentos que constroem o relacionamento deles são o fio que conduz essa história.

A beleza de Mudbound está na compreensão do ser humanos naquilo que lhe é mais latente, que é essa busca por encontrar seu lugar no mundo, encontrar seus iguais. Compreender a volatilidade das nossas certezas e da dificuldade de se tornar quem se é, a cada momento.

O filme olha para essa nossa necessidade individual sem perder de vista o quanto isso pode parecer simples na essência, mas, na verdade, é impressionantemente complexo e difícil, principalmente, romper barreiras, tanto as que criamos, quanto as que não são só nossas, mas moldadas por um mundo que vai muito além de nós e que resiste e luta como um animal acuado à qualquer tentativa de mudança.

Rob Morgan é um dos grandes destaques do filme, contendo o peso do mundo em seus ombros e em seu olhar. O silêncio que dilacera quando a escolha é a preservação dos seus e a importância de entender como o mundo funciona e de se posicionar inquestionavelmente pela sobrevivência, tendo aprendido, independentemente da sua raiva ou tristeza, como deve agir para sobreviver e manter sua família o mais segura possível. Sua figura marca um grande contraponto entre essas duas famílias que é a importância, para ele, da união entre ele e os seus.

Mas acima de qualquer instinto ou de busca pessoal, a necessidade de sobrevivência é ainda o que temos de mais forte e para isso nos submetemos, nos misturamos e nos adaptamos ou, ao menos, tentamos.

As Mulheres na história carregam o peso de existir em um universo dominado por homens, refletindo e sofrendo o peso que as escolhas desses homens têm em suas vidas e, tudo que as cercam, é transformado pela sua ausência de escolhas diante do mundo.

Para Laura, Carey Mulligan, sua jornada é exatamente a luta silenciosa contra seus anseios. Ela tem sua vida completamente transformada ao ser arrastada e jogada, sem ser consultada, nessa fazenda no meio do nada, presa em um casamento sem emoção enquanto seu corpo e seu coração anseiam por mais. E quanto mais encerrada nesse lamaçal, mais ela parece enxergar do mundo.

Mary J Blige, desapareceu dentro da personagem e está, praticamente, irreconhecível, assim como Florence Jackson desaparece dentro de sua dinâmica familiar. Em um movimento oposto ao de Laura, para ela o mais importante não são seus anseios individuais, mas sim a sua família

Me disseram uma vez que, se um filme que trata de questões raciais não causar desconforto, algo está muito errado. Então, definitivamente, algo está muito certo em Mudbound porque é exatamente isso que o filme faz, incomodar.

Desde o sentimento claustrofóbico causado pela direção de fotografia que nos faz mergulhar na Lama junto com essas pessoas. Mudbound quer dizer algo como confinado à lama, ligado à lama. Assim como essas duas famílias que colidem trabalhando nesse mesmo terreno e estão ligadas entre si por essa terra difícil, presos aos velhos costumes, às velhas formas, encalhados sem sair do lugar, presos em um buraco de dor e preconceito do qual não conseguem sair. Cada um dos personagens está irremediavelmente confinado à sua vida nesse lugar. Cada um deles mergulhado em que era, sem saber como se tornar as pessoas que são agora, com lama até o pescoço.

A fotografia de Rachel Morrisson se mescla ao design de som e o filme é capaz de quase nos fazer sentir a lama, seu cheiro, sua textura. A sensação de estar preso sem ter para onde ir está em tela, praticamente o tempo todo, em todas as direções aquela sujeira, aquela vida. E, as imagens e a música se fundem numa poesia melancólica e arrebatadora.

A direção de Dee Rees é segura e guia os atores por um caminho que ressalta a trajetória, muito mais do que o desfecho. Ainda que a construção dos arcos narrativos não seja inovadora e que eles caminhem em direção à um ápice esperado, é nas particularidades da jornada que a história ganha força. Há uma noção de interconectividade, nos detalhes que constroem o universo em que esses personagens estão inseridos, em que compreendemos como cada um deles está ligado aos demais e cada vida, cada escolha, afeta a todos de alguma maneira.

O filme de Dee Rees é repleto de detalhes, alguns sútis, outros nem tanto, mas todos igualmente importantes, construindo o retrato de uma época, mas que, na verdade, carrega a sombra do presente de uma sociedade que, ainda que de maneira diferente, continua presa, sem sair da lama que a aprisiona. Um filme pesado que nos força a refletir sobre o que hoje consideramos certo e errado e sobre as definições que limitam nossa existência e aquilo que acreditamos.

Patricia Costa

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