Se pararmos por um segundo e olharmos em volta atentamente, não leva muito para percebemos, em quantos níveis e de quantas formas diferente, simplesmente, falhamos. Falhamos como indivíduos e como sociedade. Ouvimos com grande frequência atualmente que a humanidade fracassou, que somos um erro da natureza e que já está mais do que na hora do bom e velho Recall. Poluição, Guerra, Excesso de consumo, Excesso de lixo, extinção de animais, desmatamento, violência…é uma lista que parece interminável.

Imagine, então, se nos deparássemos com uma descoberta científica que apresentasse uma possível solução. Uma saída, capaz de salvar o planeta. Esse é o futuro imaginado por Alexander Payne. Um futuro em que cientistas descobriram uma maneira de reduzir o ser humanos a cerca de 12 centímetros e assim poderíamos reduzir o nosso impacto no planeta. Mas, teríamos que optar por isso por isso e o processo seria irreversível.

O diretor criou de maneira consistente e interessante toda a tensão envolvida em tomar uma decisão como essas, nos mínimos detalhes, ele nos levou pela dúvida e pelas implicações de optar se tornar pequeno e fazer essa transição para uma minicidade. Todo o primeiro ato do filme é simplesmente fascinante e a construção do que seria uma vida mais ambientalmente responsável parece a saída perfeita.

Matt Damon, como Paul Safranek, é o fio condutor que nos leva por essa jornada de escolha e transformação. É através dele que percebemos que o diretor, Alexander Payne, está interessado em muitos assuntos para além dos nossos problemas ambientais. Há um olhar muito mais direcionado para o individual que acaba transformando o filme num estudo de personagem.

O personagem de Damon começa a cogitar fazer a transformação, por perceber que não é, nem nunca vai ser um cara bem-sucedido. O procedimento, para além de ajudar o meio ambiente, promete enriquecer, considerando que aqueles que possuem uma vida inferior teriam enfim a oportunidade de experimentar uma vida de luxo, já que com o encolhimento o dinheiro que possuem na vida normal se ampliaria muito em um universo em que as coisas são pequenas e custam menos.

Mais uma vez, Alexender Payne nos faz rever o conceito de nossa existência, nossa noção de sucesso e felicidade, através de um personagem simples e pouco expressivo, mas que tem sua apática e desinteressante figura refletida nos demais ao seu redor, ressaltando o vazio de sua existência. Matt Damon está bem, como sempre, mas é Hong Chau o grande destaque do filme.

Há um preocupante tom acima do natural, que pode tornar a personagem simplesmente caricata e preconceituosa, como a “nativa” que vai ajudar o personagem principal a ver a verdadeira beleza da vida. Mas, Hong Chau está tão bem que ela consegue passar por cima disso e dar vida a uma personagem consistente que transforma o filme em uma experiência completamente diferente depois de sua aparição.

Outro ator que é um prazer assistir em cena é Christoph Waltz, como Dusan, o vizinho. Há cenas em que ele está simplesmente parado sorrindo e é difícil não sorrir com ele.

O grande desafio do filme é lidar com a profusão de temas que quer abordar, só que nem sempre consegue fazer isso bem, fazendo com que seja confuso e sem foco em muitos momentos, o que pode fazer com que o espectador perca o interesse.

A verdade é que o filme é um bom alerta para o fato de que “Não importa onde vamos, lá estaremos”. Não é possível fugir dos nossos problemas individuais que se refletem na maneira como nos constituímos como sociedade, porque em qualquer lugar do mundo, com qualquer tamanho seremos sempre os mesmos. A mesma pessoa infeliz, materializada por Safranek, a mesma sociedade corrupta, egoísta, baseada na desigualdade, a mesma mentalizada vazia, que mede sua existência em bens de consumo, que acredita que não só o outro, mas o planeta, está a nosso favor, para nos prover e proporcionar felicidade. E, no fim, a mudança necessária é em cada um de nós. O quanto é importante cada pessoa individualmente ser uma pessoa melhor e como uma pequena mudança individual é capaz de afetar tantas vidas ao nosso redor.

Patricia Costa

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