(All I See Is You), de Mark Forster
Com  Blake LivelyJason ClarkeAhna O’Reilly

Dependência é a necessidade excessiva de auxílio, ajuda ou proteção, é subordinação, sujeição. Os relacionamentos se desenvolvem das mais diversas formas, sendo a dependência uma delas. Há nessa forma de se relacionar uma necessidade da fragilidade do outro, que facilita o controle, que proporciona um sentimento de segurança, tanto de quem controla quanto de quem é controlado.

Gina sofreu um acidente de carro que a fez perder a visão quando era criança e depois de uma vida de insegurança em que a dependência era constante em sua vida, já que precisava da ajuda das pessoas, principalmente a do marido, eis que surge a oportunidade de fazer uma cirurgia de transplante de córnea que a faria voltar a enxergar de um dos olhos e isso definitivamente mudaria a sua vida.

Mark Forster tem uma filmografia bastante diversa que vai do drama mais sentimental à Ficção científica e que também possui erros e acertos, mas muito de seu trabalho pensa a maneira como vemos o mundo e como esse olhar interfere em quem somos e como nos relacionamos com as outras pessoas. Por Trás dos Seus Olhos junta um pouco de algumas dessas propostas anteriormente exploradas pelo diretor e o filme passeia por alguns gêneros, assim, o drama que acompanha as transformações vividas por Gina, rapidamente se transforma em um suspense com forte teor psicológico.

Há um interessante conceito estético no filme que explora o enxergar, usando do olhar da câmera para nos transmitir um pouco da sensação de como Gina percebe o mundo. A personagem não é completamente cega, conseguindo perceber algumas formas e cores. A possibilidade de dar ao expectador a perspectiva dela de mundo faz com que o filme proporcione uma incrível experiência visual, que passa por alguns diferentes momentos entre ver o mundo em formas e cores e enxergar quase que completamente.

Blake Lively(Lanterna Verde, Águas Rasas) é Gina e essa é, definitivamente, uma das melhores atuações de sua carreira. Ela é capaz de nos fazer sentir as barreiras que cercam essa mulher, a sua solidão e os limites de sua existência, determinada sempre pelo outro. Assim como nos leva pela jornada de autoconhecimento e questionamento pela qual passa após voltar a enxergar, acontecimento que a transforma completamente, impactando permanentemente o universo dessas pessoas, mudando sua relação não só com o marido, mas com o mundo e com a pessoa que ela nem mesmo sabia que era.

Cada nova forma, cada nova cor, cada novo passo, dá a Gina a segurança para finalmente começar a caminhar sozinha, a ser mais independente e questionar o mundo que a cerca, incluindo suas escolhas. Liberdade e dependência não caminham bem juntas e isso imediatamente transforma a relação de Gina com seu marido, James, vivido por Jason Clarke (Mudbound, A hora Mais Escura), um homem acostumado a estar no controle da vida da esposa que fica cada vez mais inseguro a medida que ela ganha liberdade para conhecer o mundo além de seus braços, o que o faz sentir ameaçado a medida que perde o poder sobre a vida dela.

O filme é extremamente intrigante e essa nova condição acaba trazendo à tona lados desconhecidos e obscuros dos dois personagens e faz isso, até certo ponto, sem escolher lados, mostrando as fraquezas dos dois personagens. É possível perceber de onde cada um deles vem  e porque acabam colidindo de maneira tão intensa, o que é bastante interessante, quase como se eles tivessem se apaixonado sem nunca terem se conhecido de verdade.

A premissa de que a beleza está nos olhos de quem vê, é tomada em sua superficialidade, já que, a princípio, acreditamos que há uma série de outros detalhes que constituem um relacionamento para além do que os olhos veem.

Ao mesmo tempo que o filme explora os dois personagens e suas obscuridades, não explora nenhum de maneira contundente, desperdiçando grandes oportunidades de se aprofundar em questões altamente interessantes, parecendo inclusive perder o foco, já que tenta abarcar muitas coisas e acaba não desenvolvendo nenhuma muito bem. O clímax acaba sendo previsível deixando o final bem fraco, mas apesar de algumas questionáveis escolhas do diretor e evidentes problemas no roteiro, o filme possui muitos elementos interessantes, já que levanta questões relevantes e o faz, apesar de com excesso, usando recursos interessantes, especialmente, visuais.

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