O mais novo e tão esperado trabalho de José Padilha é um projeto um tanto desafiador. O simples fato de ter como tema o histórico conflito Israel x Palestina já é um grande desafio à quem quer que o escolha como plot. Seria um facilitador se considerássemos que por se tratar de uma adaptação baseada em fatos reais, o enredo não exigiria nada além da boa aplicação da verdade através de sua produção. Mas é Padilha, e sendo Padilha, é difícil imaginarmos que ele possa simplesmente reproduzir um fato sem encontrar uma maneira de inserir sua assinatura.

Antes de continuar a análise mais técnica, falemos dos fatos nos quais se baseia o filme. O ano é 1976. Um grupo de rebeldes Palestinos, com o auxílio de revolucionários alemães, sequestram o vôo AF 139 da companhia Air France que iria de Tel-Aviv a Paris com 248 passageiros, dentre os quais, a maioria, Judeus. Após anunciado o sequestro, os terroristas assumem o controle da cabine, orientando o piloto a desviar sua rota e descer na Líbia para reabastecimento. Em terra por 7 horas, eles finalmente partem para Uganda, mais precisamente, para o Aeroporto de Entebbe, onde contam com o apoio do ditador local que os cede um terminal desativado que serviria de cativeiro por sete dias neste episódio histórico.

A exigência dos sequestradores é que Israel liberte 53 terroristas palestinos, que estão em suas prisões. Israel tem como princípio jamais negociar com terroristas, quando, então, o grupo rebelde ameaça exterminar um par de reféns a cada 2 horas, o ministro, Yitzhak Rabin, se vê num dilema entre seguir as regras de estado e não negociar com terroristas e preservar a vida dos reféns. Sob tal ameaça, o primeiro ministro decide autorizar a operação “Thunderball”, que é enviada para tentar o resgate destes reféns. Por se tratar de uma história verídica, não estaríamos dando spoillers, de qualquer forma, aos que não conhecem e pretendem assistir ao filme, preservaremos aqui o desfecho desta história.

Voltando a produção cinematográfica, podemos dizer que o filme é bem didático, em alguns momentos, com ar de documentário, uma vez que cada momento é datado em lettering. Além disso, há inserido na obra, imagens e trechos extraídos de matérias jornalísticas reais. Ainda, se considerarmos a cronologia dos acontecimentos e, até mesmo, a forma como as cenas e os diálogos são construídos, fica muito fácil ao público, ainda que este desconheça todo o enredo que cerca o conflito entre Israel e Palestina, entender o que se passa.

O contraponto a este esqueleto mais direto e explicativo, se dá na inserção do romance entre uma jovem dançarina Patrícia Martel (Andrea Deck) e o soldado Zeev Hirsch (Ben Schnetzer). E, aí sim, o ponto alto da obra de José Padilha. A alusão e o paralelo traçado entre um espetáculo de dança que abre o filme de forma bem intrigante e se fará presente ao longo da trama, dando certo ritmo à história dos dois dentro da adaptação. A coreografia é sensacional.

A trilha sonora, por conta de Rodrigo Amarante, segue o jeito mais americano de aumentar emoção quando se pede, em cenas mais tensas e relevantes. A edição, do também brasileiro Daniel Rezende merece menção, quanto aos flashbacks, muito bem inseridos, não dando margem para nenhum tipo de confusão para o entendimento do público. A fotografia é meio sépia, trazendo aquele aspecto arenoso para a tela, comum à filmes que reproduzem um passado relativamente distante e ambientes de guerra, especialmente no Oriente Médio e África.

Comandam a trama, como protagonistas, Wilfred Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike), membros das células revolucionárias da Alemanha Ocidental. Com mais rodagem, diria que Rosamund rouba a cena que pelo roteiro deveria ser de Daniel. Nada que salte aos olhos da crítica. A atriz não chega a fazer seu melhor papel mas consegue transmitir a tensão necessária que falta ao companheiro.

Quem também se destaca é Eddie Marsan, como Shimon Peres, o ministro da defesa de Israel, que a todo momento encoraja o primeiro ministro a autorizar uma operação militar para o resgate. Este movimento cria uma certa tensão e até desconfiança em seu personagem, e ele consegue aplicar esta tensão de forma muito precisa.

Embora seja um filme onde o elenco tem que ser necessariamente vasto (afinal, são 248 reféns contando a tripulação do vôo, mais sequestradores, mais políticos em Israel, militares, enfim…), não temos muitos personagens relevantes além dos citados. Entre os reféns, poucos tem algum momento de importância que logo é suplantado pela trama principal.

Por fim, creio que a maior curiosidade em relação ao trabalho de José Padilha em 7 Dias em Entebbe, seja a tentativa de não contar a história sob o prisma de algum dos lados. Sendo mais claro, ter que ficar em cima do muro diante de uma questão tão delicada historicamente. Logo ele, que tem como característica se colocar de forma bem particular. Neste caso, ele talvez dê indícios pequenos do que gostaria de dizer, mas talvez tenha preferido um resultado mais seguro nas bilheterias.

Eu gostei do filme, diante de todas estas observações e acho que vale a conferida.

Leonardo Tupper

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