(L’amant d’un jour ), de Philippe Garrel

Com  Éric CaravacaEsther GarrelLouise Chevillotte

Um professor de Filosofia de meia idade, Gilles (Éric Caravaca) se envolve com uma de suas alunas, Ariane (Louise Chevillotte). A relação ganha uma dinâmica diferente quando sua filha, Jeanne (Esther Garrel), após terminar com o namorado, aparece em sua porta buscando alento.

O cinema Francês tem suas peculiaridades, e ao assistir alguns minutos do novo filme de Philppe Garrel, se é capaz de identificar no filme elementos narrativos como indicativos de um olhar francês para o mundo. E, ainda que o cinema Francês seja inovador e olhe o mundo com uma liberdade maior, principalmente no que diz respeito à sexualidade de seus protagonistas, esse definitivamente não é o caso de amante por um dia.

O que agrava a fraqueza do filme é o próprio discurso do diretor que acredita fazer um filme de arte, e por isso acima da compreensão do público médio. Além de julgar seus filmes especiais, Garrel se compara a grandes gênios do cinema europeu Truffaut, Goddard, Buñuel. Mas a ausência de humildade do diretor reverbera nos longos minutos de seu filme em que fica nítida a superficialidade de seu olhar às questões do amor feminino.

É um filme que se usa do discurso da simplicidade das relações para reproduzir estereótipos sobre o comportamento feminino, tentando jogar luz sobre as fraquezas e frustrações dos romances heterossexuais. Os personagens representam imagens das quais, cada vez mais, buscamos nos afastar, que resumem a existência feminina à uma submissão a figura masculina.

Jeanne vai parar na casa do pai, desolada após terminar o relacionamento com um homem, que segundo seus relatos quer que ela seja uma pessoa diferente do que ela é,  ela está desolada ao ponto de tentar o suicídio. Enquanto Ariane é uma jovem estudante universitária que diz ter se apaixonada pelo professor pela maneira como ele a olhava, como se ela estivesse nua. Há muito espaço para desenvolvimento desse tipo de ideia já que somos sim motivados, muitas vezes, pelo olhar do outro, e em algum nível é o outro que nos faz existir, mas o filme não tem profundidade. Há sim uma interessante premissa, que culmina com essas duas mulheres dividindo a vida, e se tornando amigas, sob circunstâncias inusitadas.

O relacionamento entre elas é, de fato o que há de mais interessante no filme e o que mais parece representar o olhar francês, com pouco julgamento e maior liberdade de ser. Não parece haver desconforto pela situação em si, mas em algum nível há uma espécie de batalha silenciosa pela atenção de Gilles, mas também uma cumplicidade que se desenvolve entre elas.

Os cineastas são figuras excepcionais e brilhantes, capazes de contar histórias através do olhar do outro, capazes de transmitir as sensações do outro, mesmo nunca tendo vivido pessoalmente aquelas histórias. No caso de amante por um dia, infelizmente, fica claro o quão pouco o cineasta parece entender da alma feminina resumindo sua vivência a superficialidade de alguns clichés.

O filme é elegantemente filmado em preto e branco, mas vem com uma trilha extremamente dramática que parece combinar com o sentimento de inadequação causado pelo filme, que carrega em sua narrativa um olhar equivocado para o feminino, simplista e superficial, como se dessa matéria fossem feitas suas protagonistas e essa visão é arrematada pelos diálogos que parecem espelhar essa falta de profundidade, chegando a ser infantis em muitos momentos.

O curioso é como o fato de o filme ser francês, de ser de um diretor renomado, faz com que procuremos  justificativas para seus problemas, chegando até mesmo a questionar o nosso próprio conhecimento e compreensão do que assistimos, “Eu não devo ter entendido”, para explicar o porquê de não termos gostado, ou comprado a ideia da produção e assim nos agarramos aos poucos bons elementos como a fotografia ou uma cena interessante, para não criticar obra negativamente. Mas a verdade é que as vezes os filmes não são aquilo que esperávamos,  simplesmente, e não correspondem àquilo que consideramos bom ou que queremos ter como retrato da nossa sociedade ou de um grupo, independentemente de sua origem ou de por quem foram feitos.

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