Existem algumas regras que podemos aplicar sempre na hora de escrever uma boa comédia, como a famosa “regra do três”, onde uma situação é apresentada e ela vai crescendo em três etapas até chegar ao máximo do absurdo, que no caso é o “punchline” da piada. Com o tempo as comédias mais atuais, em especial aquelas completamente voltadas ao público jovem, vão criando outros tipos de regras para criação desse tipo de filme. Para eles quando uma cena não é engraçada o suficiente é só gritar algum absurdo, fazer algo considerado obseno ou fazer algum personagem sofrer alguma dor física.

Sim, não é a mais inteligente das escolas de humor, mas isso não significa que não podemos receber boas comédias nessa fórmula: O Virgem de Quarenta Anos, Se Beber Não Case e Vizinhos, são exemplos positivos. Infelizmente não podemos dizer o mesmo de Perda Total, a genérica nova comédia lançada exclusivamente no Netflix.

Criada e protagonizado por Adam Devine, Anders Holm e Blake Anderson, as mentes criativas por trás da pouco valorizada série Workaholics do canal Comedy Central, Perda Total coloca os três amigos como membros da equipe de limpeza de um luxuoso hotel, onde uma rica web celebridade chamada Bey Awadi (Utkarsh Ambudkar) resolve dar uma grande festa no terraço do hotel, recebendo diversas celebridades de Hollywood. Os amigos vêm essa oportunidade de ouro para apresentar a Bey o projeto criado por eles chamado de “Skintendo”, onde o jogador usa uma roupa para controlar virtualmente um personagem no jogo de vídeo game.

O problema é que a festa é invadida por uma equipe de criminosos liderados por Conrad (Neal McDonough), que pretendem transferir toda a fortuna de Bey para uma conta no exterior. O que eles não contavam é que o trio de perdedores fossem se transformar em uma espécie de John McClane e começassem uma caçada aos vilões em busca de conseguir salvar Bey e recuperar sua chance de patrocínio.

Dirigido pelo estreante Kyle Newacheck, o filme apresenta a formula de personagens comuns sendo colocados em uma situação no melhor estilo Duro de Matar, referencia essa que inclusive é reconhecida dentro do filme, deixando clara a intenção de sátira. O problema é que praticamente nenhuma piada no roteiro é bem construída ou bem pensada, as cenas são quase que filmados a partir de um fraco momento de improviso do elenco. Sendo uma sequencia de piadas que só servem para mostrar o qual grosseiro e infantil os personagens e as situações conseguem chegar.

A tentativa de chamar a atenção do público também se encontra nas gratuitas e fracas participações especiais de celebridades, cada vez mais absurdas (olha a regra do três) elas servem apenas para “chocar” o público vendo suas personalidades favoritas (e o cantor Shaggy) em situações surreais.

Outro elemento que é crucial para o filme funcionar e acaba sendo um de seus principais problemas e na construção dos três protagonistas. Sempre que nós vemos um personagem perdedor sendo colocado nessa situação do absurdo extremo, nós acabamos torcendo por eles. Mas em Perda Total o público não consegue se identificar ou até mesmo se importar com os três amigos, afinal eles são péssimas pessoas. Completamente irresponsáveis, egoístas e sem a menor consideração pelo próximo, inclusive um pelo outro, o que falha na construção do “bromance” entre os protagonistas, que seria primordial para a história funcionar.

Assim com Perda Total a Netflix continua seu ambicioso projeto de lançar mais de 80 filmes originais em 2018. Infelizmente essa “pressa” em dar o aval para a produção de tantos filmes, acaba fazendo o estúdio perder aquilo que era sua melhor característica: apresentar ao público obras de qualidade.

Renato Maciel

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