Zama

(Zama), de Lucrécia Martel
Com  Daniel Giménez CachoLola DueñasMatheus Nachtergaele 

“Eu sou bastante otimista no que diz respeito ao desencantamento que produz homogeneidade de maneira geral. Os filmes que são bem-sucedidos (nos cinemas) são bastante homogêneos em termos de narrativa e visão de mundo.” Lucrécia Martel

Lucrécia Martel é considerada a poetisa esquiva do cinema Latino-Americano. Depois de 9 anos longe das grandes telas, a cineasta está de volta com essa impressionante adaptação de um romance de Antonio Di Benedetto, Zama. Homogeneidade, linearidade, padrões, são termos que conversam muito pouco com a maneira da cineasta perceber o universo que a cerca e com a maneira que costuma abordá-lo em seus filmes. Esse é mais um exemplo desse olhar, um tanto caleidoscópico, que Lucrécia Martel é capaz de colocar sob aquilo que aborda em seus projetos.

Don Diego de Zama é vivido por Daniel Gimenez Cacho, um oficial da coroa espanhola “preso” nas Américas, e desde sua primeira cena, um olhar já deixa claro o quanto ele não queria estar ali, mas o quanto, na verdade, anseia por voltar a sua terra natal, reencontrar sua esposa e filhos e retomar sua vida de onde a deixou. Pode-se dizer que ele é quase tão escravo quanto aqueles que comanda. Florestas, insetos, guerreiros, há uma sorte de perigos, ou desconfortos que o cercam.

Martel usa Don Diego para criar uma alegoria sobre a colonização na América Latina. A opressão, a solidão, as dificuldades de enfrentar esse mundo novo imposto. Zama é também um filme sobre a espera, sobre a infelicidade de estar encurralado na vida, uma vida que não é a sua.

A diretora afirmou em uma entrevista que o que a interessa nessa história é a questão da identidade, a nossa cultura judaico-cristã nos faz crer que somos merecedores de recompensas por aquilo que somos e fazemos, estamos sempre a espera de algo, a espera da vida após a morte, a espera de que a nossa existência faça sentido, desperdiçamos o presente a espera do futuro.

A questão da colonização abordada tão brilhantemente ressona também na identificação do expectador com atores, que vem de diversos países. O brasileiro Matheus Nachtergaele, que faz o “vilão”, une a América latina em Modus Operandis, no que diz respeito à escolha de objetivos, já que é um comportamento comum a esses países, focar na busca pelo vilão, um bandido, um grupo corrupto qualquer e não nos problemas concretos que assolam esses países como investimentos em infraestrutura, educação.

Martel tem uma maneira de conduzir a história e filmar que nos faz sentir como se acompanhássemos um personagem em um filme de terror, desses em que a pessoa está aprisionada e a morte parece se aproximar. Isso com sua maneira muito peculiar de navegar o ritmo e imprimir lógica à narrativa. Uma sensação claustrofóbica e um tanto desesperadora vai crescendo à medida que o filme se desenrola e é quase possível sentir os mosquitos, o peso do calor, o incômodo e até certo medo daquele lugar e situação opressora.

Don Diego é, sem dúvida, um azarão. Após ter seu pedido de regresso rejeitado mais uma vez, ele parece atingir o auge da melancolia, quando, aparentemente, as coisas não podem ficar piores, uma lhama imunda adentra o seu quarto e se posiciona, exatamente, nas costas dele. Cenas assim acrescentam uma leveza e uma comicidade à atmosfera pesada de infelicidade carregada pelo protagonista. Uma sortes de situações, aparentemente absurdas, que costuradas a essa trama fabulosa dão a ele outro tom.

O filme é definitivamente instigante e capaz de levantar vários questionamentos. Sua estética envolvente, mas que causa uma sensação que, até poderíamos dizer, é assim meio delirante. O filme é, certamente, mais um magnífico exemplo da inventividade e olhar peculiares de Lucrécia Martel, que fazem do filme uma belíssima e instigante obra.