(Cobra Kai: The Karate Kid Saga Continues)
Com William Zabka, Ralph Macchio, Xolo Maridueña, Tanner Buchanan e Mary Mouser.

A ideia de trazer de volta a saga de Karatê Kid não é nova. Durante anos, os roteiristas John Hurwitz e Hayden Schlossberg desenvolveram um conceito para atualizar a trilogia de filmes para uma nova geração.

Quando Will Smith, por meio de sua produtora, comprou os direitos da franquia e decidiu fazer um reboot como veiculo para seu limitado filho em 2010, a ideia da dupla de escritores parecia definitivamente fadada a nunca sair do papel. Felizmente o filme não encontrou seu público (talvez pela falta de carisma de Jaden Smith ou pelo fato de não haver nada de karatê num filme que se passa na China, onde o jovem aprende Kung Fu).

A ideia voltou a ganhar força dois anos atrás quando um canal do Youtube apresentou um vídeo essay de sucesso (mais de 8 milhões de acessos) mostrando que Daniel Larusso (Ralph Macchio), e não seu adversário Johnny Lawrence (William Zabka), era o grande vilão da produção original de 1984. A teoria, alias, é tão interessante que grande parte dela foi intencionalmente incluída na nova série. E era o que os produtores – ainda com Will Smith por trás – precisavam para aprovar o projeto. O público ainda estava lá e faminto por mais rivalidade.

Cobra Kai não é somente uma atualização da mesma história para um novo público, embora a trama tenha situações semelhantes. Nem uma festa de nostalgia com roupagem moderna como Stranger Things, embora encontre espaço para respeitar todos os eventos dos três filmes que Macchio participou.

A trama tem inicio quando Johnny Lawrence, ainda assombrado pela derrota no torneio All Valley de Karatê para Larusso, evita (involuntariamente) que o jovem Miguel seja espancado por um grupo de valentões. Logo depois, uma série de coincidências bizarras acabam fazendo com que Johnny acredite que Daniel Larusso esteja por trás de toda desgraça que abateu sob sua vida. Ele decide então ceder a vontade de Miguel e treiná-lo, trazendo de volta seu antigo dojo Cobra Kai, e de quebra, despertando a ira do rival de longa data.

Se o Karatê Kid de 30 anos atrás era uma franquia para todas as idades, está série não poderia ter acertado mais na abrangência de seu público. Eu assisti a produção com minha namorada que nunca viu nenhum dos filmes e, mesmo assim, nada atrapalhou sua compreensão do enredo. Mérito de um roteiro que acerta em aparar qualquer dúvida que um principiante possa ter, antes mesmo que a tenha.

Essa diversidade não se encontra somente no público, mas também no elenco da produção, que aborda a vida de brancos, hispânicos, orientais, nerds, obesos de forma direta e realista para os dias atuais. Por isso, não é surpresa que em poucas semanas Cobra Kai tenha se tornado a série nova de maior sucesso dos últimos anos, desbancando 13 Reasons Why, La Casa de Papel e até a vencedora do Globo de Ouro, Handmaid’s Tale.

Mas a série é mais que isso. Em determinado momento, Johnny justifica para seu aluno seu método politicamente incorreto e brutal de treinamento: “Vou te ensinar uma luta que sua geração de cagões desesperadamente necessita”. A frase não só explica muito dos efeitos destrutivos que conduziram a vida do personagem, como aponta o dedo para os milênios reclamões acostumados a debater qualquer opinião por trás da segurança de seus teclados.

Ela é também um retrato de uma geração de adultos que nunca verdadeiramente soube o que buscar. Que tinha sonhos altos e disposição de atleta para alcança-los, mas nunca conseguiu se livrar das perdas ou vitórias do passado. E que eventualmente cedeu ao individualismo da geração seguinte, abandonando carreira e família pelo caminho.

As consequências disso podem ser vistas nas vidas de ambos os protagonistas; Johnny nunca esteve presente na criação de seu filho Robby e quando decide faze-lo, é rejeitado pelo menino. Daniel, por outro lado, é o pai perfeito do comercial de margarina mas perdeu a confiança da filha e não consegue fazer com que seu filho obeso abandone o videogame e viva no mundo real.

Servindo como principal lançamento do YouTube Red (que não é uma plataforma tão nova assim), Cobra Kai não é somente uma das melhores novidades deste ano mas também um belíssimo estudo sobre os rumos de nossos heróis e vilões (se é que estes conceitos ainda existem nos dias de hoje). E te deixa com uma lição bem madura que nenhuma geração parece ainda ter compreendido: não existe vitória que não cobre um alto preço de sua vida.

Marcelo Cypreste

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