Idem, de Tiago Arakilian
Com José de Abreu, Danton Mello e Guta Stresser

A vida é uma constante luta contra o tempo. Desde o momento que nascemos o nosso corpo começa a perecer, a se destruir. E essa, talvez, seja nossa maior incoerência. Passamos a vida lutando contra a morte e os efeitos do tempo, enquanto passamos a maior parte desse mesmo tempo esquecendo de viver, ignorando o fato de sermos perecíveis, frágeis, criaturas passageiras, perdendo a oportunidade de valorizar o que de fato é importante. Mas são aprendizados que só o amadurecimento, a velhice nos traz e infelizmente como dizia Shakespeare não deveríamos ter ficado velhos antes de ficarmos sábios, o que faz com que muitas vezes seja tarde demais.

Polidoro, interpretado de forma belíssima, por José de Abreu, é um Juiz de 80 anos, que é assolado pela percepção de que está com sinais de Alzheimer. Ao colocar sua vida sob perspectiva decide comprar uma casa de Strip, causando para além de estranheza a preocupação de sua filha (Letícia Isnard), que decide interditá-lo, só que, para isso, ela precisa da aprovação do irmão (Danton Melo), só que ele, que há anos não se encontra o pai, não aprova. O juiz decide então obrigar o filho a passar tempo com o pai, a fim de ajudar a tomar a decisão sobre o destino dele.

O relacionamento entre pais e filhos nunca é simples e o tema é capaz de despertar, em nossos subconscientes, tensões que nos remetem aos nossos conflitos pessoais, a nossas próprias vivências com nossos pais. Danton Melo está nitidamente entregue emocionalmente ao personagem e em é possível perceber em seu olhar a ternura, a angústia, o desconforto que essa relação com seu pai o traz. A química entre ele e José de Abreu é extremamente comovente, um trabalho dramático pouco explorado do ator, que é enternecedor.

Por mais que o envelhecimento seja uma verdade absoluta da qual não podemos fugir, não sabemos lidar com ele. Envelhecer é, curiosamente, um enorme Tabu na nossa sociedade, que rejeita o corpo velho, que exclui, que descrimina, que torna invisíveis aqueles que já perderam a juventude. Então, um filme nacional que dá a esses corpos, porque são vários no elenco, autonomia, sexualidade, graça e cor. Um filme que olha e enxerga nele desejos e anseios, não só sofrimento, mas entende que eles sentem prazer, solidão e que riem e amam. Esse olhar que humaniza essa velhice tão desprezada faz dessa uma obra quase transgressora.

O roteiro de Luíza Parnes tem um humor afiado e é de uma sensibilidade comovente e com muita delicadeza e precisão explora o impacto do tempo em nossas vidas. A relação entre pai e filho que se transforma diante de nossos olhos, se aprofunda e se intensifica mas que, ainda assim, é mero fio condutor para abordar uma série de questões profundas e extremamente relevantes sobre envelhecer.

A maneira como a história é construída é tão envolvente que facilmente nos relacionamos e associamos e lembramos da própria vida e daqueles que nos cercam. Tiago Arakilam, guia a história com maestria e dá fluidez aos atos e aos arcos dos personagens deixando a história agradável, ainda que lidando com temas delicados e até mesmo tristes, há um cuidado para que a história não fique pesada e o diretor parece saber exatamente a emoção que quer despertar e o momento certo para isso, deixando a narrativa mais leve, ainda que tocante.

Antes que eu me esqueça é um deleite. Gostoso de assistir do início ao fim, o filme, além de tocar nossos corações com um roteiro bem elaborado e uma direção fluida e leve, nos faz refletir sobre as nossas escolhas e a maneira não só que vivemos, mas como envelhecemos. Quando a nossa memória se for, quais lembranças vamos deixar com quem ficar?

Patricia Costa

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