Sicario: Day of the Soldado, de Stefano Solima

Com Benício Del Toro, Josh Brolim, Isabela Moner, Catherine Keener, Matthew Modine, Elijah Rodriguez

Poder e controle sempre foram os maiores objetivos dos grandes impérios e os meios para obtê-los, conta a história, sempre foram questionáveis, através de medidas e políticas, que, apesar de serem vistas pela maioria como criminosas, sempre foram muito utilizadas e levantam questões sobre a velha dicotomia entre mocinhos e vilões, linha, tão tênue, que as vezes é, praticamente, inexistente. O medo sempre foi um fator de união utilizado para controlar a opinião pública.

O primeiro Sicario explora muito bem os limites do poder do estado entre o bem e o mau e questiona, não só se os fins justificam os meios, mas a humanidade ou monstruosidade dos homens na linha de frente dessas operações. Sicario: Dia do Soldado, retoma essa aproximação com esse lado obscuro da política, que utiliza de artifícios pra conseguir o que quer, nos engajando em um primeiro ato incrível, dinâmico, direto ao ponto e cativante, construindo de forma gráfica todo o cenário político que desencadearia a trajetória do filme e de seus personagens, deixando mais uma vez o gosto amargo da sujeira que existe por trás dos acontecimentos mundiais, dos quais não fazemos ideia.

“Quanto mais você aumenta o medo de drogas e crimes, assistencialismo, imigrantes e estrangeiros, mais você controla o povo” (Noah Chomsky). Terrorismo é a palavra do momento e o que está em jogo é ainda maior do que no primeiro filme, então Matt Graver (Josh Brolim) é trazido de volta para liderar a operação que deveria desencadear uma guerra entres diferentes facções do crime organizado Mexicano, mais uma vez com a ajuda de seu fiel cão de guarda, Alejandro (Benício Del Toro).

Benício Del Toro e Josh Brolin têm uma conexão com esses personagens que é impressionante de ver, há uma naturalidade dos dois atores nesses papéis que é tão interessante que, pra mim, já justificaria a existência dessa continuação e mais uma vez eles estão incríveis nos papéis. Infelizmente os personagens tomam rumos muito diferentes do primeiro filme em que a ausência de uma ética ou bússola moral, os torna intrigantes e diferentes do que estamos acostumados, deixando-os imprevisíveis, aumentando assim o teor de suspense da história, já que eles podem seguir qualquer caminho.

A promessa do primeiro ato de soltar “a besta” e tacar fogo no mundo não se cumpre e o que temos é uma espécie de tentativa de resgate da humanidade desses homens, através da relação deles com a personagem de Isabela Moner (Isabel Reyes), filha de um dos chefes do tráfico Mexicano, sequestrada com o objetivo de dar início à uma guerra que enfraqueceria o poder das facções, facilitando a ação americana “contra o tráfico de drogas”.

A atriz está muito bem e o arco de sua personagem é o melhor do filme dando à jovem a oportunidade de explorar diferentes narrativas percorridas ao longo do filme, enquanto o personagem de Josh Brolin acaba sendo muito mal aproveitado, principalmente no terceiro ato, tendo pouco desenvolvimento e participação.

Mas o filme se perde antes disso, a partir do segundo ato, se distanciando cada vez mais do fator realista e visceral, que o tornou tão cativante em um primeiro momento virando um filme como muitos de gêneros semelhantes, com situações absurdas que pouco convencem o expectador, principalmente quando enreda pelo caminho de abrandar a natureza visceral desses homens com situações como por exemplo encontrar no meio do deserto um homem surdo-mudo, unicamente para poder cotar a história do personagem de Del Toro, na busca de tentar redimi-lo de suas atrocidades e, agora, como heróis, mostrando que talvez seja possível recuperar sua humanidade.

Outros atores no elenco como Catherine Keener e Mathew Modine, passam muito brevemente pela tela, reforçando inclusive alguns clichés que são problemáticos. A subtrama de Elijah Rodriguez, que eventualmente se cruza com a trama principal, assim como toda a escolha da temática em torno dos imigrantes ilegais mexicanos e sua associação ao terrorismo, considerando a dramática situação que o país vive com relação às políticas de migração, pode ser uma abordagem perigosa de uma questão complicada em um momento delicado.

O roteiro de Taylor Sheridan, apesar de aquém ao primeiro filme, continua inteligente e violento o suficiente para que valha a pena, com excelentes momentos, apesar de poucas viradas inesperadas. A direção de Stefano Solima dá novos ares a trama tirando o peso do suspense e privilegiando a violência, reduzindo a tensão, muito presente agora na trilha que chega a ser incomoda, por ecoar uma tensão que não se sente nos acontecimentos do filme.

Sensação que acompanhava de forma tão eficiente a surpresa da personagem de Emilly Blunt no primeiro filme em que a cada nova descoberta parecia refletir o assombro também do expectador, à medida que nos dávamos conta do quanto tudo parecia flertar com a realidade, tanto que o filme chega a parecer quase documental em alguns momentos. Tudo parecia possível e passível de acontecer na vida real, não haviam limites. A moralidade acrescentada nesse segundo filme fez com que se perdesse essa linha de tensão, que fez falta.

É um filme diferente, em que se sente nitidamente as mudanças e ausências com relação ao primeiro, o que não faz desse um filme um ruim, definitivamente é possível aproveitá-lo pelo que é, com ótimas atuações e um roteiro com excelentes momentos de violência e narrativa inteligente, mas faltou aquela sujeira a mais pra fazer dessa continuação um excelente filme à altura do primeiro. O filme deixa em aberto a possibilidade de mais uma continuação, será que valeria a pena?

Acredito que não, se o caminho seguido for o deste segundo filme.

Patricia Costa

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