Au revoir là-haut, de Pierre Albert Dupontel
Com Nahuel Pérez Biscayart, Albert DupontelLaurent Lafitte, Niels Arestrup, Émilie Dequenne, 

Uma trincheira, vidas em suspenso em uma calmaria claustrofóbica. A guerra chegou ao fim.  E agora, o que será de cada um daqueles soldados? A dificuldade de um homem em enfrentar essa nova condição lança os soldados em uma desnecessária batalha final que selaria os destinos que estávamos prestes a acompanhar. Um cativante início em uma excelente cena de guerra, muito bem construída, que já nos primeiros minutos nos apresenta, com suas reviravoltas, a complexidade do que está por vir, criando uma conexão do expectador com os personagens.

As guerras redefinem as fronteiras e mudam o rumo das histórias, mundiais e pessoais. Estratégias, batalhas, mortos e heróis. O cenário da guerra rende muitos filmes de ação e drama sobre seus desdobramentos, mas não falamos na mesma proporção sobre o que acontece quando a guerra acaba. Nessa história, baseada no livro de Pierre Lemaitre, Au revoir là-haut, que rendeu ao autor um dos principais prêmios da literatura Francesa, o Goncourt, transformando, o antes autor de suspenses criminais, em um dos celebrados escritores franceses da atualidade, As cicatrizes deixadas unem Albert Maillard (Albert Dupontel) e Edouard Péricourt (Nahuel Pérez Biscayart), dois homens que não tem nada em comum além do fato de terem estado juntos na guerra, mas que agora lutam para sobreviver enquanto a mesma sociedade pela qual deram o sangue, agora vira as costas para eles. Enquanto o homem responsável pelos momentos que arruinaram suas vidas vive uma vida de conforto e luxo, usando os corpos dos soldados mortos como forma de enriquecer corruptamente.

São pequenos detalhes que marcaram o recomeçar da vida desses dois ex-soldados que remetem todo o tempo às consequências da guerra. Os traumas, a falta de emprego, os vícios causados pelas feridas da guerra, os veteranos que simplesmente vão parar na rua, as dificuldades de reconstruir a vida, que seguiu em frente enquanto eles estavam lutando, são muitas situações que evidenciam também o descaso do estado Francês para com seus oficiais.

Dupontel, famoso por seu trabalho como ator, surpreende nessa conjuntura em todas as etapas da produção desse longa, roteiro, atuação e direção, usando sua inventividade para mesclar leveza, obscuridade e um pouco de teatro do absurdo ao abordar uma série de duros cenários dessa vida pós-guerra. O olhar de Dupontel é tão inusitado que chega a ser difícil definir um gênero para o filme, que brinca com as possibilidades dando frescor à narrativa.

O que corrobora muito para que o filme encontre o tom certo são os excelentes figurinos e o design de produção que se destacam e é a partir desses elementos que o filme ganha ares que passeiam entre o surrealismo do personagem artístico de Nahuel Pérez Biscayart, que substitui os desenhos do início do filme por máscara que ele constróis, atrás das quais esconde, não só os estragos físicos que a guerra o deixou, mas também os traumas da sua difícil relação com o pai e a comédia Chapliniana de Dupontel, onde se percebe uma crítica social aliada à leveza da personalidade do personagem boa praça, que de um jeito tenta fazer a coisa certa e que conta até com o elemento de uma menina que cria afinidade, principalmente com o personagem de Nahuel unindo esses dois universos de forma mais completa.

O filme de Dupontel é ambicioso, considerando todos os muitos elementos presente na trama, mas apesar disso ele se sai bem e no final assistir à Nos Vemos No Paraíso, é uma experiência que instiga diversas emoções e percepções, dinâmico e sempre com um acontecimento ou um desdobramento inesperado é capaz de manter à atenção com personagens cativantes em um desfecho surpreendente. É um prazer assistir à filmes de cineastas que arriscam e acrescentam elementos diferentes às suas narrativas, que mesmo não funcionando o tempo todo deixam aquela gostosa de frescor e o tempo investido se torna uma deliciosa aventura.

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