I Feel Pretty, de Abby Kohn e Marc Silverstein
Com  Amy SchumerMichelle Williams, Rory Scovel, Emily Ratajkowski, Tom Hopper, Adrian Martinez

Amar seu próprio corpo, se achar bonita e ser confiante é um ato revolucionário em uma sociedade que desde que nascemos tenta nos mostrar, através dos seus ideais absurdos de beleza, o quanto somos inaptas e imperfeitas, principalmente se você está fora dos moldes tradicionais. Uma sociedade que cria padrões de beleza inatingíveis até mesmo para aquelas que são, supostamente, porta vozes desses corpos que passamos a vida inteira perseguindo. Adoecemos, somos inseguras, odiamos nossos corpos e somos incapazes de ver o quanto, de fato somos incríveis a maior parte do tempo.

Ao começa a assistir à Sexy por acidente, pensei imediatamente “Lá vem a Amy Shumer fazer piadas depreciativas com o próprio corpo”, piadas que eu não entendo na maior parte do tempo porque ela nem é gorda! Olho para ela e vejo uma mulher magra e bonita, loira de olhos claros, bem dentro dos padrões, mas, de repente, pensando bem, ela não é tão magra assim. Ao lado da Michelle Williams a diferença é gritante. Tandy Newton,  Scarlet Johanson,  Gal Gadot e, à medida que essa lista cresce, me dou conta que, de fato, ela está bem fora dos padrões de corpo do universo que habita, então quando tudo parecia fazer um pouco mais de sentido comecei a identificar no filme comportamentos vividos diariamente, não só por mim, mas por minhas amigas e por toda a rede de mulheres que me cerca, sem importar muito bem como de fato são seus corpos.

A personagem de Amy shummer, Renee bennett, conversa diretamente com muitas mulheres e com como nos sentimos a maior parte do tempo, assim como outras presenças no elenco como Michelle Williams, que mais uma vez deixa claro que não tem nada que ela não possa fazer, representando o quanto não importa se você é linda, rica, bem sucedida, ainda assim, se for mulher, não vai ser o suficiente, vai te faltar voz, e você vai estar numa constante busca por se afirmar, por respeito e amor próprio.

Ethan, vivio por Rory Scovel, que faz par romântico com a personagem principal, também é um excelente acréscimo à trama e a construção do relacionamento entre eles, como é raro em filmes do gênero, me parece bem próximo da realidade. É interessante também o fato de o personagem dele explorar uma vulnerabilidade masculina que fica fora na maior parte do tempo, mostrando o quanto a insegurança não é privilégio das mulheres.

Amy Shummer é uma dessas personalidades polêmicas nas quais a mídia e o público adoram descontar seu veneno, mas nesse filme ela consegue de forma muito eficiente construir os dois momentos da sua personagem, uma mulher que é bonita, interessante, divertida, querida pelos amigos, mas que não consegue ver em si mesma as qualidades nítidas aos demais e é de cortar o coração o quanto isso é um retrato de tantas mulheres. É verdade que ela não te ganha imediatamente, já que, de fato, falta à atriz um carisma natural, mas ela consegue construir essa relação com o expectador ao longo do filme.

Ela é uma comediante que ganha a vida fazendo piadas depreciativas com o próprio corpo, uma personagem também na vida real, que sempre a deixa artificial e forçada nos papéis em que atua, inclusive o dela mesma.  Nesse contexto, é interessante de ver a virada que a história dá e como ela carrega e convence como uma mulher eu se vê linda e transborda auto confiança, o que faz com que ela fique mais leve ao longo do filme, se aproximando mais de uma pessoa real, trazendo inclusive a expectativa de que isso se materialize no seu trabalho após o filme.

A ideia de uma transformação mágica vivda por personagens não é nenhuma idéia nova.. Porém, o roteiro de Abby Kohn, Marc Silverstein (Nunca fui beijada, ele não está tão afim de você assim), velhos conhecidos da comédia romântica, traz um olhar diferente no caso de Sexy por Acidente que é o fato de só ela ver a transformação, o fato de a mudança ser um processo interno torna as situações vividas engraçadas em muitos momentos, evidenciando a grande questão por trás da comédia, o quanto o que de fato nos transforma é a maneira como nós nos enxergamos. Amor próprio e autoconfiança são diferenciais que mudam como nos colocamos no mundo e é isso que determina a maneira como outras pessoas nos veem e nos fazem mais atraente e bonitos.

A proposta do filme é extremamente relevante e interessante, o filme faz pensar sobre diversas questões que afetam nossas vidas diariamente e, apesar de não ser extremamente engraçado, tem um humor leve e funcional que consegue cativar com situações altamente relacionáveis, fazendo dessa comédia com Amy Shummer uma bela e agradável surpresa.

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