Hannah, de Andrea Pallaoro
Com  Charlotte RamplingAndré WilmsStéphanie Van Vyve

Uma enorme baleia encalhada na praia. Já morta, mas sem ter se dado conta ainda. A vida já em suspenso segue, mas lentamente se esvaindo, emitindo o odor da morte. Isolamento, Solidão, dor, vazio.

O rosto constrito e ao mesmo tempo tão revelador nos fisga desde a primeira cena, nos instigando a acompanha-lo, a encará-lo e descobrir o misto de sentimentos intensos por trás de cada dobra, de cada olhar. Ocupa, quase que em totalidade, o tempo do filme e ficamos ali perplexos, magneticamente atraídos, como se enfeitiçados.

A câmera próxima nos coloca como se a espreitar de forma intima e inquietante o silêncio opressor dos dias que se seguem à ida do marido de Hannah para a prisão, por motivos que não são claramente revelados. Tudo em volta é frio e asséptico, com detalhes e diálogos escassos, mas suficientes para aos poucos revelarem a gravidade do que aconteceu.

Ela segue. O cachorro que se recusa a comer, as aulas de teatro, as flores, a família, o neto, tudo vai se esvaindo. Ela caminha, lutando dentro do peito contra a realidade, na qual parece não acreditar, enquanto as paredes se fecham ao seu redor. Os sentimentos são quase tangíveis e dentro de nós, que acompanhamos, cresce o peso no peito, o nó na garganta, o assombro, ora pela personagem e pelo caminho que se desdobra diante de seus pés, ora pela grandeza de Charlotte Rampling que é, simplesmente primorosa. Hannah é um desnudar-se, uma exposição da alma em sentimentos através das expressões, praticamente sem texto, é puro sentir e Rampling é arrebatadora.

O filme é repleto de detalhes, do menino cego com quem ela possui uma relação afetuosa, ao casal que briga no metrô. Da palheta de cores aos longos takes. Detalhes muitas vezes sutis que se somam não só à história, mas ao sentimento construído.

Andrea Pallaoro nos desafia a olhar, em longos e frios closes, em silêncio, num misto de força e dor. a acompanhar o vazio e a angústia, nos provoca a ficar quando tudo mais já se foi, a alegria, a esperança, o sorriso, a cor, quando tudo que resta é quietude, afastamento, austeridade. Ficamos, para sermos atravessados por Charlotte Rampling, uma gigante, tal qual sua baleia na areia.

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