Everyday, de Michael Sucsy
com  Angourie RiceJustice SmithDebby Ryan


Devemos amar as pessoas por quem elas são, não por como elas se parecem. O que importa é o que está por dentro, a beleza interior. Ouvimos isso incontáveis vezes, mas, ainda assim, sempre que vemos uma história de amor a aparência dos protagonistas é fundamental, inclusive para que o romance aconteça.

Em Todo Dia, Rhiannon (Angourie Rice) é uma menina bonita, doce, gentil, a típica menina legal, mas que namora um cara não tão legal, que a trata com descaso, é frio e distante. Até que um dia, sem nenhum motivo aparente, ele parece diferente, mais leve, cativante e realmente interessado nela, em estar com ela, o que resulta nos dois vivendo um intenso dia juntos, conversando, rindo, descobrindo mais um sobre o outro. Só que para a surpresa de Rhiannon, no dia seguinte, o rapaz alega ter poucas lembranças do dia anterior e, basicamente, volta a ser um idiota completo. A confusão dela só aumenta depois que conhece um misterioso menino em uma festa, com quem tem uma inusitada conexão.

Eventualmente a menina é confrontada por “A”, um rapaz que alega ser uma espécie de espírito, sem gênero, que muda de corpo todos os dias, acordando cada dia para viver, apenas 24 horas, na vida de pessoas diferentes, sempre na mesma faixa etária. Ele está apaixonado por Rhiannon,  que é a primeira pessoa para quem revela sua existência. Apesar de ser algo difícil de acreditar eles começam a passar cada vez mais tempo juntos, o que significa que a menina estará cada dia com uma pessoa diferente.

A premissa é interessantíssima, identidade, amizade, família, ética, o filme passeia por várias questões enquanto explora um amor adolescente com uma pitada sobrenatural, que realmente mergulha na ideia de que temos que amar as pessoas por seu interior. O filme explora, diferentemente da maioria dos romances adolescentes, questões de sexualidade e gênero muito mais pelo lado emocional, independentemente da aparência física, ainda que só na superfície, já que isso acabou sendo não tão bem aproveitado na prática.

Infelizmente o filme explora pouco as possibilidades fornecidas por essa ideia. Vale ressaltar aqui o incrível trabalho de elenco, que é a melhor coisa do filme,  em que não questionamos em momento algum o fato de que eles são a mesma “pessoa”, pois há uma unidade construída com o elenco que interpreta “A” que é de tirar o chapéu. Mas apesar de termos um ator a cada poucos minutos, sempre que vemos uma cena romântica, com beijos e carícias o ator em questão é um homem padrão bonito, com uma única exceção. Um dos destaques é a cena em que o espírito é interpretado por Jacob Batalon, que faz Ned, o amigo de Peter Parker em Homem-Aranha: De Volta ao Lar. Na cena o jovem conta a Rhiannon sua história e o ator é excelente e passa muito credibilidade já que tem um jeitão de boa pessoa, deixando o momento leve e a situação mais crível, mas a cena é um dos exemplos de uso de atores fora do padrão em momentos específicos sem contato físico entre eles e que teria sido incrível ver essa diversidade mais explorada na prática que na teoria. Já a protagonista, Angourie Rice é simpática e cativante e funciona muito bem sendo a menina simples e normal, que é o fio condutor da história, cercada por diversos personagens que entram e saem de cena rapidamente.

O roteiro é um grande problema no filme, já que a ideia de que o amor está em quem as pessoas são, que é rica e oferece muitas possibilidades, é rapidamente abandonada juntamente com suas possíveis ramificações, se concentrando no casal e sua tentativa de fazer funcionar o relacionamento, enquanto deixa pelo caminho não só a premissa original mas uma serie de personagens mal aproveitados, muitas perguntas e alguns furos enquanto vai caindo na mesmice do drama de relacionamento. A montagem não ajuda e o filme acaba sofrendo com o ritmo.

No fim, apesar dos pesares, Todo Dia é um filme diferente que abre as portas para diálogos relevantes sobre amor e sexualidade dentro do gênero de romances adolescentes e apesar de ter sido mal aproveitado, isso não impede o filme de ser relevante, agradável e gostoso de assistir.

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