patreon_mensagem-600x265 Mile 22, de Peter Berg

Com Mark Wahlberg, Lauren Cohan, Iko Uwais, Ronda Rousey, Peter Berg e John Malkovic.

Você já entrou num jogo para perder? Já disputou uma partida de xadrez pensando na revanche do próximo jogo?

Em suma, o novo filme de Peter Berg, estrelado por seu ator assinatura Mark Wahlberg, é na verdade um prólogo de um outro filme que promete ser muito melhor (como manda a tendência em Hollywood, vide quase todos os filmes “origens de super-heróis” dos últimos anos, incluindo o novo O Predador, atualmente em cartaz).

Ainda interessado? Ok, então sorria se você já viu isso centenas de vezes antes:

Grupo de elite americano em país estrangeiro ignora todas as regras de diplomacia e destrói metade da cidade enquanto tenta sair do ponto A para chegar no impossível ponto B, em um prazo de tempo improvável, para salvar única pessoa que tem acesso ao único instrumento capaz de evitar  a explosão de uma bomba nuclear. Ah, e os vilões são russos.

Pode sorrir agora.

Mas é claro que o forte dos filmes de ação nunca foi a história, você vai pensar. Pelo contrário! O bom deste gênero é que você já sabe quais as regras do jogo antes mesmo de colocar as peças no tabuleiro. Coisas absurdas como “lógica” e “desenvolvimento de personagens” não se aplicam aqui. Certamente você não vai se incomodar em ver uma granada explodindo literalmente a cada 10 minutos de filme. Mesmo que os resultados sejam diferentes todas as vezes (alguns personagens são estranhamente imunes as explosões).

A presença de Iko Uwais atrapalha mais do que ajuda. Não me leve a mal, eu adoro o cara e suas cenas de luta são disparadas a melhor coisa do filme. Mas o excesso de cortes na montagem de tais cenas me fizeram sentir falta do trabalho mais fluido, onde o espectador consegue acompanhar o que está acontecendo diante de seus olhos, de diretores como Chad Stahelski ou Gareth Evans, da série Operação Invasão, que deu fama internacional a Uwais.

O filme aposta na expectativa (criada pelo trailer) que o público costuma ter para este tipo de produção. De certa forma, o filme é uma espécie de cavalo de Tróia dentro da própria filmografia de Peter Berg; você sabe o que esperar do diretor e do filme, você sabe quem são as peças do xadrez e, eventualmente, como tudo vai terminar. Ai tudo termina. E não só não é aquilo que você, fã do gênero, estava esperando (culpa de um roteiro apressado e despreocupado em fechar arestas), como o filme ainda te pede para voltar para um segundo round.

Seria está a razão do filme ter péssimas críticas e uma bilheteria bem abaixo do esperado nos EUA? Difícil é discordar ou ignorar tantos problemas estruturais vindo de um diretor experiente em contar dramas bem amarrados como Horizonte Profundo: Desastre no Golfo e O Dia do Atentado (possivelmente seu melhor filme).

É quase como se você tivesse dormido durante seu jogo e quando acorda, já acabou. Espera ai, como assim?! Ficam as perguntas. Onde diabos foram parar as peças do tabuleiro? Por que eles não fizeram isto ou aquilo antes?

Por que explorar toda a biografia do personagem de Wahlberg somente para justificar sua síndrome de Asperger? (suspeito que o ator sofra desta mesma condição visto que todos os seus personagens são sempre os mesmos). A maneira como seu personagem praticamente humilha todos os companheiros só para provar sua inteligência faz de seu Jimmy Silva um dos piores protagonistas dos últimos anos.

Nada contra um protagonista cínico de vez em quando (outra modinha em Hollywood), mas o filme não faz nenhum esforço em estabelecer um mínimo de empatia com o “mocinho” (alias, não tenho vergonha em dizer que por essas e outras torci para o vilão do filme). E quer saber o pior? A personagem de Lauren Cohan (The Walking Dead) – uma das poucas com um mínimo (eu quis dizer mínimo!) de desenvolvimento – embora passe o filme todo reclamando de Jimmy, é a mais perfeita versão feminina do mesmo.

Veja isto da seguinte forma: 22 Milhas, novo filme de Peter Berg, estrelado por Mark Wahlberg, é um “jogo fácil” de uma hora e meia, que você entra pela diversão e adrenalina, deixa de se interessar lá pela metade (ainda que não tire os olhos do tabuleiro) e, por fim se questiona se todo sacrifício valeu a pena. Pode confiar, o gostinho é de derrota.

Marcelo Cypreste

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