patreon_mensagem-600x265 Searching, de Aneesh Chaganty

Com John Cho, Debra Messing, Joseph Lee, Michelle La e Sara Sohn

Em 2010, lembro vividamente quando assisti ao trailer de Catfish, um pequeno filme que acabou virando série de sucesso da MTV. O tema parecia bobo, mas uma frase no trailer me vendeu instantaneamente a produção: “Este é o filme que Alfred Hitchcock gostaria de ter feito”.

Catfish é um filme legal, mas não é pra tanto. Buscando…, primeiro longa metragem do diretor Aneesh Chaganty, é, sem dúvidas, o filme que Alfred Hitchcock faria nos dias de hoje.

E como qualquer clássico do Mestre do Suspense quanto menos você souber sobre o filme melhor será a experiência. Felizmente neste caso, o trailer funciona à favor da produção, direcionando o espectador para caminhos absolutamente diferentes daqueles tomados na trama.

Trama, alias, que começa bem morna; acompanhando a história da família Kim, desde o nascimento da filha única Margot (a excelente Michelle La) até o trágico falecimento da mãe Pamela (Sara Sohn), em uma aula de edição que cativa e emociona no tom certo – lembrando os primeiros minutos de Up – Altas Aventuras pela rapidez que nós conquista, e preparando o terreno pra o que virá à seguir.

Em um dia como qualquer outro, o pai David (o extraordinário John Cho, de Star Trek), acorda, liga para a filha, vai trabalhar, volta pra casa, liga novamente e descobre que ninguém a viu naquele dia. A menina desapareceu da noite pro dia deixando poucos vestígios.

Inicia-se então uma realista procura, não somente em busca de provas físicas e concretas pela policia – representada na figura da detetive Vick (Debra Messing, de Will & Grace) – mas também por um instável pai, reconstruindo cada passo virtual que sua filha teve até o momento do desaparecimento.

É ai que Buscando… forma todo seu brilhantismo. Conduzindo cada nova descoberta e informação com tranquilidade, o diretor consegue dar ao filme um ar de desespero constante que lentamente envolve seu espectador. Por que não clica ali? Por que não procura no email? Por que não olha a lixeira? Cada tela aberta, cada palavra no canto de um monitor pode ser uma pista em potencial.

É neste pequeno mas fundamental elemento – auxiliado por uma edição, volto a dizer, extraordinária – que a comparação com Hitchcock é válida. O personagem de Cho, nosso guia durante este complexo e aparente crime, é daqueles protagonistas que dá orgulho de seguir: sempre um passo à frente, agindo da mesma forma que nós, passivos espectadores do lado de cá da tela, gostaríamos de fazer (uma lição para todos os histéricos personagens de filmes de terror).

O mais impressionante de Buscando… poderia ser sua envolvente trama ou a enxurrada de reviravoltas que vão te deixar inquieto na poltrona. Não. O detalhe mais interessante é que o filme se passa todo em um black mirror (uma tela de computador, celular ou televisão). E a forma que Chaganty encontra de deixar tudo ainda mais interessante para um público acostumado à passar horas diante desta tecnologia é parte da magia que o filme exerce.

Hitchcock disse uma vez: “Existe algo mais importante que a lógica: a Imaginação. Se a idéia é boa, jogue a lógica pela janela”. Seguindo ao pé da letra as palavras do Mestre, os últimos 10 minutos da produção podem incomodar ou desapontar um pouco. Nada que abale a formidável estrutura que o roteiro criou – se pensar bem, a conclusão embora absurda, serve para a perfeita redenção de um certo personagem.

Em outras palavras, se você curte um bom suspense ou uma intrincada teia criminal, não precisa procurar muito além. O cinema é a forma mais dinâmica de arte moderna, e Buscando… soube explorar cada centímetro desta inevitável revolução.

Marcelo Cypreste

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