O gênero de ação não é daqueles de apresentar muitas inovações ou variações de seus temas. Se você sabe alguma coisa sobre este novo filme de Pierre Morel (diretor de Busca Implacável e B13 – 13o Distrito) e se interessou, há grandes chances de você já saber o que o filme te reserva. Se você não tem ideia do que esperar, o trailer não deixará dúvidas. Felizmente, em ambos os casos, vocês serão surpreendidos positivamente.

As surpresas começam logo no primeiro ato da trama, que não tem a menor pressa de explicar todos os detalhes que levaram ao nascimento da tal Justiceira. Riley North (Gardner) é uma bancária com problemas para manter as contas da casa e a filha feliz. Durante uma fracassada festa de aniversário da menina, ela e o marido decidem comemorar em um parque de diversões, quando um pequeno detalhe do passado provoca a morte de sua família.

Se em muitos filmes isso já seria suficiente para pularmos para a ação, aqui é só mais um elemento de uma série de abusos que a moça passa até tomar a decisão de pegar numa arma.

Minha justificativa favorita é a mais sutil: por causa de um tiro na cabeça, Riley tem alucinações com sua filha morta. Se por um lado isto mantem viva a memória na menina, por outro isto também a distancia da realidade e assombra a mulher, constantemente a lembrando de sua missão. Em outras palavras, Riley está surtando e por isso não se importa em morrer.

Sejamos francos, os vigilantes estão em alta na moda. O subgênero sempre foi popular, mas em meio ao desemprego global e violência indiscriminada, nada como o bom e velho “exercito de um homem só” para levar um pouco de alento ao público. Nos últimos anos, só com este tema, tivemos uma enxurrada de filmes B – a maioria estrelada por Nicolas Cage, uma série do Punisher na Netflix, a refilmagem de Desejo de Matar, O Protetor 2 e agora este filme.

A diferença é que Morel conhece os clichês do gênero e oferece algo ligeiramente superior. Ao contrário dos exemplares que citei acima, o diretor não opta por glamourizar a violência. É claro eventualmente temos aquelas cenas do protagonista se costurando depois de um embate (com direito a close no ferimento) e a cota de tiros na cabeça é atingida com louvor. Mas em grande parte da projeção há uma preocupação em virar a câmera no momento em que alguém é violentamente assassinado, ou nem mesmo mostrar como certos personagens morreram – repare como o assassinato da família North é apresentado com pouquíssimo sangue, nenhuma perfuração de bala e nem mesmo os sons dos disparos são ouvidos.

Neste caso, menos é mais. Morel opta pela dedução e lógica da plateia de forma bastante inteligente, sem perder muito tempo com questões como “de onde ela tirou o dinheiro pra sobreviver tanto tempo?” e “como ela conseguiu as armas?”. Em determinado momento, o filme mostra com extrema sutileza que uma certa arma é deixada em certo lugar. Quando esta questão volta à tona no filme, a fica a sensação de que cada batida do roteiro foi cuidadosamente planejada.

Talvez por isso as reviravoltas do roteiro funcionem tão bem. Algumas delas são tão bem estruturadas por pequenos detalhes nas atuações (reparem em cada expressão do grande John Ortiz) que são quase impossíveis de serem previstas. Talvez por não ser levado pelos excessos de cortes ou explorar tão bem os cenários que dispõe que o mis-en-scene funcione tão bem. O terceiro ato se passa em um grande local que é explorado em sua totalidade e não deixa dúvida nenhuma de quem está onde durante toda a ação.

Outro trunfo da produção, sem dúvidas, é Jennifer Gardner. Não me levem à mal, mas nunca assisti Alias e nunca fiquei convencido de que a atriz pudesse carregar um filme de ação. Não mais! Gardner compensa toda magreza e falta de músculo em acrobacias convincentes e muito talento para manusear armas de grande porte.

Se você quiser fazer uma boa ação essa semana, vá assistir este filme pelo intenso trabalho físico que esta mulher, do alto dos seus 46 anos, foi capaz de superar. E seja surpreendido.

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