A Esposa

patreon_mensagem-600x265The Wife, 2017

De Björn L. Runge, com Glenn Close, Jonathan Price, Max Irons, Elizabeth McGovern e Christian Slater.

Lançado no meio do ano passado nos EUA, finalmente entra em circuito brasileiro o badalado A Esposa, do diretor sueco Björn Runge. A produção, que levou onze anos para ser realizada, chega com status após a surpreendente vitória (sim, surpreendente. Basta reparar a reação da própria atriz) de Glenn Close como Melhor Atriz Dramática, no último Globo de Ouro, do dia 6 de Janeiro.

Nada menos merecido, já que a atriz de 70 anos – indicada seis vezes ao Oscar, incluindo seus extraordinários papéis em Ligações Perigosas (1988) e Atração Fatal (1987) – é disparada a melhor coisa deste irregular filme.

Propositalmente, porém, logo no inicio, somos apresentados as ansiedades do marido Joe Castleman (Price), consagrado autor literário, nervoso com a possibilidade de receber o Premio Nobel em 1992. No auge de sua insônia e nervosismo ele conta com os conselhos (e o corpo) de sua fiel esposa Joan (Close), apresentada como a mais perfeita personificação da Amélia, de outros tempos.

É claro que o filme reserva outras camadas para ambos os personagens e ver isso se desenvolver é parte do charme da produção. Mesmo assim, essa primeira cena, no leito do quarto do casal é bastante emblemática de como o diretor trabalha os estereótipos dos personagens – um elemento criticado por Joe ao se referir à escrita do filho (Irons), mas que no filme serve como mera muleta para classificar os “passivos” dos “abusivos”.

Um bom exemplo disso é a apresentação do personagem de Christian Slater, durante o voo para Estocolmo, onde será realizada a premiação; descrito como mentiroso e intrometido, mesmo que seu comportamento demonstre o contrário. Mesmo que tudo isso seja eventualmente apresentado com desenrolar do filme, o simples fato de preguiçosamente explicar quem é aquele personagem antes mesmo que o público forme uma opinião sobre ele, já demonstra um sério problema do diretor e da roteirista Jane Anderson (Olive Kitteridge) em tirar o melhor de sua trama.

Felizmente este não é o caso de Glenn Close, que está perfeita.

A pressão em receber o prêmio somada aos anos de repressão e infidelidade do marido malvadão vão desencadear uma série de reflexões na esposa perfeita, que a fará questionar seu casamento e carreira após anos 40 anos de silêncio. Uma história bastante forte e atual, que quando bem trabalhada rende cenas memoráveis. Não é o caso deste filme, infelizmente, mas não por culpa de Glenn Close (já mencionei que ela está brilhante?).

A condução da trama fica ainda mais sobrecarregada ao apresentar elementos paralelos que deveriam desenvolver melhor o arco principal, mas servem apenas pra estender o confronto entre marido e mulher, e, pra piorar, terminam sem resolução nenhuma; o filho chorão que deseja a aprovação do pai, o escritor biográfico em busca dos segredos sensacionalistas, a filha prestes a entrar em trabalho de parto, a fotografa sedutora em busca de aventura sexual.

Se já não fosse o suficiente, o filme inclui uma série de flashbacks de quando o casal se conheceu que não só entregam o “segredo” do terceiro ato, como se revelam absolutamente desnecessários como argumento da passividade da Esposa durante todos estes anos. Por isso, não é de se estranhar que Close esteja recebendo todos os elogios, mas o filme em si, não.

Embora todas os diálogos e simbolismos do filme sejam infantilmente óbvios (principalmente o da cena final), em nenhum momento a atriz deixa de vender muito bem as necessidades e angustias de sua Joan. Sim, SUA Joan! O personagem é todo de Glenn Close! Tendo visto a qualidade das atuações dos demais personagens deste filme é difícil dividir este mérito com o diretor.

Close domina o filme de forma contida e contraditória, como uma bomba prestes a explodir mas sem o desejo de machucar ninguém. Se levar o Oscar, terá todo meu aplauso por sua carreira extraordinária. Não pelo filme que a consagrou.

Eu recomendo que vocês assistam por todas as cenas, olhares, e reações que a atriz imprime. Aproveite durante os flashbacks para ir no banheiro ou no snack bar. Graças a este trabalho impecável, a produção garante a curiosidade em um filme mediano, que poderia muito bem ter sido produzido como minissérie, diretamente para a televisão. Com direito a um fade final de um avião se afastando em direção ao horizonte e tudo!

Marcelo Cypreste

btn_donateCC_LG

Anúncios