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Destroyer, 2018

De Karyn Kusama. Com Nicole Kidman, Toby Kebbell, Totiana Maslany, Scott McNairy, Sebastian Stan, Jade Pattyjohn e Bradley Whitford.

Em determinado momento de O Peso do Passado, Erin Bell (Kidman) entra em um bar e enche a cara de whisky pra criar coragem de cobrar da filha, de quinze anos, o quanto ela está errada ao frequentar aquele tipo de lugar. É na base do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” que está riquíssima personagem é lentamente apresentada pela diretora Karyn Kusama (do instigante O Convite).

“Lento”, alias, é a palavra favorita de muitos críticos e cinéfilos para descrever este filme. Permita-me oferecer um contraponto. O cinema moderno se tornou um oceano para cores vibrantes pulsantes e cortes rápidos e sem sentidos, e talvez, de certa forma, tenhamos perdido a sensibilidade para filmes desaturados que levam tempo para construir sua narrativa e protagonistas problemáticos – um estilo derivado dos filmes Noir dos anos 50 e Cults independentes dos anos 70.

Desculpe, mas o filme não é lento. Tudo bem, ele pode ser um pouco longo em sua conclusão. Mas isso não significa que Kusama e Kidman não estejam no controle da trama durante toda a duração. Prova disso é que até a última cena, algumas surpresas sobre o grande plano de acertar as contas com o passado da personagem ainda são apresentadas, com a leveza de uma manobra de skate. Se isso não for o suficiente para te manter investido em um filme, talvez ele não seja pra você.

A trama segue uma narrativa não linear para explicar como a jovem Erin, então agente do FBI infiltrada em uma organização especializada em assalto à bancos, se tornou um farrapo humano quinze anos depois, rebaixada à detetive em Los Angeles e desacreditada pelos colegas de profissão. As peças vão se encaixando pouco a pouco depois que o líder do bando (Kebbell, debaixo de uma peruca absolutamente ridícula) ressurge para cobrar sua dívida com a moça.

Ou talvez nem tudo seja tão preto e branco assim como descrevi. Na realidade, a proposta do roteiro de Phil Hay e Matt Manfredi, assim como a fotografia, é ser cinza. Como em toda boa trama policial, nem tudo é o parece, já que praticamente todos os personagens guardam segredos. Os mais devastadores, porém, são os da própria protagonista e como acompanhamos todo o desenrolar por seu entorpecido ponto de vista, não é de surpreender que todo ritmo seja arrastado e apático.

E por isso, todo e qualquer elogio que Kidman tem recebido por este filme é muito merecido. Além de viver diferentes angustias em diferentes tempos da mesma personagem, a atriz passa pelos piores desafios físicos e emocionais desde que viveu Virginia Woff, em As Horas (2002), e conquistou o Oscar de Melhor Atriz.

Sua protagonista parece à beira de um colapso mas é incapaz de desistir mesmo depois de dolorosos confrontos, – alguns psicológicos de virar o rosto. Ainda que tenhamos empatia por sua busca, somos frequentemente incapazes de concordar com seus atos (ela é um imã para decisões erradas), mas em nenhum momento abandonamos sua jornada.

Kidman parece ter o domínio completo de cada nuance de sua atuação. Desde o modo prolongado que respira constantemente, enquanto recupera o folego após uma perseguição ou briga, até a transformação que passa momentos antes de entrar no banco durante um assalto, sustentando uma submetralhadora. Seus olhos mudam ao pausar por um segundo e explicar o que vai acontecer de forma fulminante à um policial acovardado: “isto vai ser um tiroteio”. É de gelar os ossos.

A cidade e os coadjuvantes por si só, carregam o peso e a veracidade que a produção demanda. Os destaques ficam para a sempre surpreendente camaleoa Tatiana Maslany (Orphan Black) e para o asqueroso advogado vivido por Bradley Whitford, que transformam o pouco tempo de seus personagens nos grandes momentos do filme. Sebastian Stan (que vive o Soldado Invernal nos filmes da Marvel), que teve um bom desempenho em Eu, Tonya (2017), também merece destaque.

Kusama comprova seu talento em dirigir mulheres fortes no cinema, conduz de forma bem segura sua trama até a conclusão (com algumas pequenas derrapadas que não comprometem o produto final) e surpreende ao captar a decadência da cidade e da protagonista. Pense numa mistura de Dia de Treinamento com Caçadores de Emoção, e breves pitadas de Amnésia. Tudo bem lento e hipnótico. Com a leveza de uma manobra de skate.

Marcelo Cypreste

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