Logo Horizontal (preto)The Kid Who Would Be King, 2018.

De Joe Cornish. Com Louis Ashbourne Serkis, Denise Gough, Tom Taylor, Rebecca Ferguson e Sir Patrick Stewart.

As histórias e lendas que crescemos lendo e ouvindo carregam o seu tempo, ainda que muitas vezes já distante. E elas, assim como na tradição oral, estão repletas de conhecimento e lições. O que mais me atrai, pessoalmente, ao cinema é o poder contido na produção de narrativas para além do entretenimento, não que esse não seja importante, mas a possibilidade que o cinema carrega de ir além de mera diversão e ocupar esse lugar de carregar, não só as marcas do momento que vivemos, mas a força da reflexão, ora sobre nós mesmos, ora sobre o mundo em que vivemos.

Joe Cornish escolheu a dedo essa história, já contada e recontada, encenada e filmada tantas vezes para, não só revisitar, mas mais que isso, ressignificar. O diretor se apropria das ferramentas que tem pra ir além, usando o seu cinema como ferramenta para sonhar o mundo como ele pode ser, como ele deve ser.

Temos então a lenda do Rei Arthur, realmente moldada no momento atual, mas não só utilizando os detalhes da narrativa original, como vemos muitas vezes em filmes que revisitam os clássicos da literatura, como em muitas das “Cinderelas modernas”, mas pegando os elementos centrais e atualizando-os, para transmitirem a mensagem ou o contexto que precisamos nos dias de hoje, costurando, com grande riqueza de detalhes, o conto desse novo herói moldado aos novos tempos.

Honra, cortesia, altruísmo, certo e errado, há tempos são conceitos caídos quase que em desuso no dia-a-dia. Alex é um menino comum, que não pensa duas vezes antes de proteger o melhor amigo dos valentões da escola. Um protagonista que é, desde o início, cerceado por um senso de justiça e uma linha moral que parecem bem definidos, apesar de a vida não ajudar muito e jogá-lo num abismo de desesperança.

Quando tudo parece perdido, o mundo um lugar horrível e a esperança quase inexistente, ele se depara com uma espada fincada na pedra e, tal como Arthur, filho de Uther Pendragon que era o único que poderia empunhá-la, direito concebido a ele por sua linhagem real e pela honra de seus ancestrais, o jovem Alex (Louis Ashbourne Serkis) não sem uma certa dificuldade consegue retirá-la.

O jovem sem graça, criado sozinho pela mãe, na base da cadeia alimentar do seu universo, não pode ser de sangue real, pode? Não pode ser o verdadeiro herdeiro! A espada não pode ser a verdadeira Excalibur. Será?

Tudo é abordado no filme da forma que possivelmente aconteceria caso alguém dissesse que de repente você estava vivendo a materialização de um conto, com demônios, magos, feiticeiros e heróis. E esse é um dos charmes da história, nada parece miraculosamente crível. É preciso ver pra crer. É preciso que monstros de fogo comecem a te perseguir pra que você comece a cogitar a possibilidade de que tem uma espada mágica. Um menino tem que se transformar em coruja na sua frente e multiplicar objetos pra que qualquer coisa faça o mínimo de sentido.

O elenco de apoio com Dean Chaumoo, como o fiel escudeiro Bedders, Denise Gough e Tom Taylor, como Mary e Lance, completam esse quarteto, nada entrosado, que sai por aí numa aventura para salvar o mundo. Tudo nos melhores moldes dos clássicos dos anos 80. Um grupo de “amigos”, jovens demais para fazer o que estão fazendo, se descobrindo enquanto encaram uma realidade maior que eles, repleta de elementos fantásticos com uma jornada cheia de revelações, duelos de espadas, perseguições, monstros demoníacos e quem sabe eles até salvem o mundo no final.

Há uma falta de química entre os 4 companheiros de viagem, que parece proposital no início, considerando a maneira como se reúnem, mas que acaba virando uma lacuna no desenvolvimento da história, deixando tudo um pouco mais frio do que poderia ser e por consequência um pouco mais cansativo e longo demais, com um ritmo um pouco oscilante em alguns momentos.

É aí que Angus Imrie rouba a cena na pele do jovem Merlim, que, num espirro, oscila entre o seu eu-coruja, sua idade real e o adolescente que protege e auxilia os jovens em sua busca. Com divertidos movimentos de mão repletos de magia, ele é responsável pelas cenas mais divertidas do filme. Se tudo o mais desse errado, a atuação e o personagem já fariam o filme valer a pena, mais ainda, com algumas aparições surpresa do velho Merlim, que dão o perfeito toque final.

No final das contas o que nos torna especiais não é de onde viemos, mas o que fazemos com quem somos, o caminho que seguimos e como somos capazes de mudar o futuro com as nossas escolhas e com nossos posicionamentos. Nada está perdido, desde que se siga o caminho mais difícil, de lutar contra aquilo que achamos errado, nos posicionando e sendo o melhor que podemos ser. Joe Cornish acerta em cheio com um filme divertido repleto de valores que precisamos rever e, quem sabe até, um pouco de esperança de que essas novas narrativas possam redefinir o futuro.

Patricia Costa

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