Se a Rua Beale Falasse

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If Beale Street Could Talk, 2018
De Barry Jenkins. Com Stephan James, Colman Domingo, Kiki Layne, Regina King, pedro Pascal, Diego Luna, Michael Beach, Brian Tyree Henry, Ed Skrein e Dave Franco.

“Você tem que decidir quem você é e forçar o mundo a lidar com você, não com a ideia que tem de você” James Baldwin

Vítimas, vilões, corpos sexualizados, estereótipos… a narrativa negra no cinema cai constantemente na armadilha da história única e o racismo institucionalizado, vilão dos nossos tempos, tema urgente e recorrente que precisa ser abordado acaba, muitas vezes, se tornando uma serie de clichês. A diferença de ter esse assunto abordado a partir de um texto de James Baldwin e contado pelo olhar de Barry Jenkins é a capacidade que eles têm de incutir beleza e naturalizar as relações humanas, acrescentando verdade e amor, onde antes só se via violência e dor.

O amor é uma força poderosa e o relacionamento de Tish e Fonny emana essa força, marcado pelas excelentes atuações de Kiki Layne e Stephan james, que tem uma química doce e inquestionável. Há uma atmosfera que marca a fotografia, de James Laxton, que dá ao filme esse calor, que conecta esses personagens, é quase como se uma energia quase palpável os percorresse nos pequenos gestos, no olhar, nas mãos que se entrelaçam, energia que está, não só no relacionamento do casal, mas na estrutura familiar, muito bem construída, nos detalhes, diferente do que estamos acostumados a ver.

O amor, como diria Baldwin, não começa da maneira que acreditamos, “O amor é luta. O amor é guerra. O amor é amadurecimento”, mesmo em tempos mais difíceis. Barry Jenkins entende isso muito bem e traduz, mais uma vez, em imagens e narrativa a força do amor. Cada imagem é dotada de uma beleza e de uma elegância cativantes, sem pressa, se ocupando em preencher os espaços com sentimentos, muitas vezes, transmitidos com ainda mais intensidade, nos olhares e nos silêncios.

As mulheres são o grande pilar dessa história, não só por termos Tish como fio condutor da narrativa, mas por vermos essas mulheres como a mola que sustenta e faz mover esses núcleos familiares. Fortalezas reais, que amam e riem e defendem os seus e, principalmente, que resistem.

Regina King é uma gigante e como a mãe de Tish transmite, muitas vezes sem dizer uma palavra, o conhecimento adquirido pela experiência, em que só de entrar em um ambiente é possível ver que ela sabe o que vem a seguir, a dor e a frustração presos no peito e a força que a faz ir em frente sendo a base, não só da sua família, mas representando uma realidade maior que ela.

Fonny é acusado de um crime que não cometeu, mas ao invés de focar em um vilão, um homem ou uma pessoa que materialize esse mal, como geralmente vemos, Jenkins deixa claro que apesar da influência do policial, o grande vilão do filme é o sistema, é o racismo institucionalizado. Há uma preocupação tão grande com isso, que se reflete inclusive no cuidado com a mulher que o acusa, nitidamente manipulada pelo sistema, tratada também como vítima, tanto que apesar dos esforços para contatá-la e fazê-la ver o erro que cometeu, há uma solidariedade que entende que reconhecer seu trauma como vítima não desmerece a inocência de Fonny.

Apesar de termos um destaque para as mulheres, os personagens masculinos também são muito bem desenvolvidos, com excelentes atuações de Colman Domingo, Michael Beach que trazem personagens com profundidade suficiente para percebermos a multiplicidade dessas conexões e o preço que a vida cobra em uma sociedade carregada de preconceitos. As preocupações, os medos, as consequências com grande destaque para Brian Tyree Henry (Atlanta, Viúvas) que deixa um nó na boca do estômago com seu quase monólogo sobre sua experiência no sistema.

Se A Rua Beale Falasse é muito mais do que a história, quase shakespereana, de Tish e Fonny, é um olhar repleto de afeto e que desvela a complexidade das relações humanas, uma vez encerradas em caixas e limitadas pela superficialidade do olhar de fora. Um olhar que nos aproxima de uma família, que é muitas, como no texto inicial, que é, de certa forma, todas as famílias negras americanas, experienciando o sistema, mas não como o esperado, com violência, com ódio, mas através de suas relações de família, amor, de suas frustrações, de sua limitações frente um inimigo muito maior do que elas.

 

Patricia Costa

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