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The Mule, 2018
De Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Bradley Cooper, Michael Peña, Diane Wiest, Taissa Farmiga, Alison Eastwood, Ignacio Serricchio, Clifton Collins Jr. e Andy Garcia.

A ideia de um senhor de 90 anos transportando centenas de quilos de drogas para o Cartel mexicano de Sinaloa é no mínimo intrigante. A história publicada na revista The New York Times, poderia facilmente ser um thriller de ação, com perseguições e policiais e provavelmente americanos salvando o mundo. Mas para Clint Eastwood há um caráter muito mais humano e até crítico a ser explorado, que é muito mais interessante.

Vivemos em um mundo que nos pressiona o tempo todo a ter sucesso, a construir uma carreira, a ser bem-sucedidos financeiramente, prover à nossa família. Se essa pressão e esses modelos perduram e são fortes ainda hoje, eles eram ainda maiores no início do século XX, quando era agravado pela masculinidade tóxica que colocava toda essa pressão sobre os homens.

Earl era dono de uma pequena fazenda produtora de flores, às quais dedicou grande parte da sua vida, em detrimento de sua família. Agora com quase noventa anos, após perder sua fazenda por não conseguir sua hipoteca, ele se vê sem nada, pois há muito suas escolhas arruinaram seu casamento e a relação com a esposa e a filha. A única coisa que lhe resta é o amor da neta que, contra tudo e contra todos. continua depositando nele esperança.

Até onde estamos dispostos a ir pra manter a dignidade e o sucesso financeiro que se espera de nós, ou que achamos que esperam de nós? Earl estava disposto a aceitar a sugestão de um dos convidados da festa da neta e procurar um grupo de mexicanos para um trabalho dirigindo, o que fez a vida toda, levando suas flores pra exposições e congressos, sem receber uma única multa ou ter qualquer problema com a polícia.

A sua ficha limpa o torna um excelente candidato a trabalhar levando drogas para o Cartel de um estado a outro e o que seria um único trabalho para ajudar com o casamento da neta vira uma rotina de viagens em que ele se vê ganhando cada vez mais dinheiro.

A abordagem narrativa do filme muito se assemelha ao estilo do personagem interpretado tão naturalmente por Clint Eastwood, é lento e com um humor astuto. O personagem toma seu tempo para saborear os pequenos momentos da vida, curtir a estrada com uma trilha sonora que merece um enorme destaque, saborear o melhor sanduíche de costela de porco do estado, visitar um amigo. Tudo isso com cenas inesperadas de humor que arrancam gargalhadas espontâneas do cinema, com destaque para Andy Garcia, que parece sempre ter uma ironia e um sorriso no canto do rosto prontos pra cada uma de suas cenas.

Sua fluidez, naturalidade e imprevisibilidade o tornam imperceptível, o que juntamente com seus 90 anos e o seu jeitinho de senhor bondoso, muitas vezes sem filtro, fazem dele a “mula” perfeita. O seu sucesso o aproxima do Cartel e ele acaba ganhando cada vez mais trabalho. Mas o coloca também no radar de uma pequena operação policial, encabeçada por Bradley Cooper e o sempre excelente Michael Peña, que acaba o vendo como uma maneira de mostrar algum serviço e captura-lo passa a ser sua missão.

Esse crescimento nos dá o acréscimo de alguns personagens e situações interessantíssimas. Nada no filme é só o que é, é sempre algo mais. Há uma série de críticas sociais que podem até passar despercebidas, mas se você estiver atento notará o olhar vivo da direção, cheio de segundas intenções e mensagens pra transmitir.

O filme falha pra mim, exatamente nesse uso desses personagens e situações. Várias relações e personagens são interessantes, como o relacionamento dele com a esposa, vivida pela excelente Dianne Wiest, e a filha, sua filha na vida real, Alison Eastwood. Mas muitos têm suas histórias pela metade ou não são desenvolvidas tão bem como poderiam. O roteiro falha ao colocar muitos desses personagens, somente quando eles são necessários, sem dar a eles alguma profundidade ou continuidade, a ponto de alguns simplesmente desaparecerem da história, como o excelente Júlio, de Ignacio Serricchio.

O valor da dívida de uma hipoteca, o número de um seguro social, o contrato de uma seguradora, a quantidade de quilos de drogas apreendidas, a idade que temos… Somos apenas números em uma máquina que não pensa duas vezes antes de nos massacrar, de nos tirar a casa ou o sustento, de nos fazer perder a noção do que realmente importa pra se ajusta a esse sistema falido, que nos faz valorizar o que não tem importância.

O filme é bem diferente do que se espera, girando todo em função de Earl, sua vivência e seu arco de amadurecimento na busca por alguma redenção enquanto nos mostra o erro que devemos evitar cometer, ou no fim só nos restará pedir desculpas.

Patricia Costa

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