Chorar de Rir

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Idem, 2019
De Toniko Melo. Com Leandro Hassum, Monigue Alfradique, Otávio Miller, Natália Lage, Rafael Portugal e Sidney Magal

Pensar na comédia como um gênero menor, talvez por tão forte apelo popular, é um erro grosseiro, desrespeitoso. Um gênero que já fez tanto pela arte não pode ser jamais menosprezado. Há algum tempo, alguns atores brasileiros mais consolidados na tv e no cinema e que tem na comédia sua linha de trabalho, vêm levantando essa questão do preconceito com a comédia.

Um desses  atores é Leandro Hassum, que parece ter escolhido de vez o cinema, dado a frequência com que lança seus filmes (são três lançamentos somente esse ano). “Chorar de rir”, a princípio parece trazer algo novo para a carreira do ator, pelo menos em sua premissa, que logo é abandonada em função dos maneirismos do ator e de um texto que atira para todos os lados.

Na trama, Hassum interpreta Nilo Perequê, um humorista consagrado que após receber o prêmio de melhor ator de comédia do ano se vê desprestigiado frente aos atores de drama. Em um momento de epifania, resolve abandonar seu bem sucedido programa de humor para se dedicar a uma montagem de Hamlet. Tudo muda, quando ele é enfeitiçado e perde seu dom para o drama.

São inegáveis as semelhanças entre o ator e seu personagem. O que poderia funcionar como uma metalinguagem, fica como uma piada ruim, que só piora devido a algumas questões que parecem realmente afetar o ator, como por exemplo a questão da qualidade do seu humor estar atrelado ao seu antigo peso.

Trabalhar a comédia em cima do absurdo é muito comum, quase inevitável, mas é preciso diferenciar o absurdo da artificialidade. A sequência da premiação é terrível, desde o momento do tapete vermelho, passando pela cena  em que Nilo escuta uma funcionária tratando a comédia como uma categoria inferior, terminando com a inacreditável trilha sonora que embala tudo isso, uma versão no piano de “Despacito” que é de dar vergonha.

O momento em que ele se vira para o drama é o momento em que o longa funciona melhor, porém as coisas mudam muito rápido, as relações do protagonista, principalmente com seu par romântico e o diretor da peça (seu desafeto), mudam radicalmente de uma cena para outra. É tudo trabalhado com pressa, de maneira descuidada.

Dado o momento do feitiço o roteiro entra numa espiral de loucuras, o humor físico de Hassum domina a narrativa e o filme se torna uma sequência de piadas que levam a situações ainda mais absurdas, em uma espécie de mistura de idéias de diferentes filmes (com algumas referências e homenagens ao gênero), intercalando com algumas cenas que buscam atingir o emocional do espectador.

O último ato, busca uma reconciliação e traz a mensagem que os gêneros da comédia e do drama podem caminhar juntos. Uma pena que o filme não consiga trabalhar justamente o que propaga. A obra traz elementos interessantes que poderiam trazer algum frescor a esse tipo de comédia, mas todas as possibilidades são deixadas de lado em pró de um humor cansativo e pouco inspirado.

Chorar de Rir é um filme de potencial, mas que termina como um ponto baixo dentro da carreira do ator. Seus últimos trabalhos, mesmo que recheados de problemas (muitos deles encontrados nesse longa), tinham mais identidade. Para um filme que visa defender e homenagear a comédia, falta ousadia e irreverência, duas características inerentes ao gênero e que andam muito em falta nas comédias de nosso cinema.