Estrada Sem Lei

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The Highwaymen, 2019
De John Lee Hancock. Com Kevin Costner, Woody Harrelson, Kim Dickens, Thomas Mann, John Carroll Lynch e Kathy Bates

Eu tenho uma queda por narrativas que contam o outro lado de histórias consolidadas no imaginário do espectador. A primeira lembrança que tenho vêm dos quadrinhos, com o mestre Will Eisner narrando a trajetória de Fagin, o vilão do clássico Oliver Twist. De lá pra cá, poucas foram as histórias com essa característica que realmente se mostraram pertinentes. É bem verdade que a narrativa aqui, poderia trazer qualquer outro bandido como personagem, mas o fato de se tratar de Bonnie e Clyde e a abordagem adotada pelo diretor John Lee Hancock, tornam tudo muito mais interessante. 

Após dois anos perseguindo a dupla de criminosos, o governo recorre a dois policias aposentados da divisão dos Texas Rangers (uma espécie de matadores de aluguel com permissão legal) para dar fim a sangrenta jornada dos bandidos que se tornaram grandes celebridades ao roubar dos bancos (uma espécie de deturpados Robin Hoods nos tempos da depressão). Agindo na margem da lei, os dois partem em uma sangrenta jornada para matar o casal sensação dos Estados Unidos.

Muito mais que a história dos responsáveis pelo fim do casal de criminosos Bonnie e Clyde, Estrada Sem Lei é um estudo de aspectos muito importantes na cultura norte americana, como o culto a celebridade, no caso o lendário casal que roubava bancos e passava por cima de quem se opusesse em seu caminho e na questão mítica do cowboy, que aqui é personificada pela figura dos então “extintos” Texas Rangers, uma espécie de herança dos cowboys de tempos mais antigos.

Usando a perseguição ao casal para criar questionamentos sobre a posição entre mocinhos e bandidos na sociedade da época (e porque não dizer na sociedade atual), o longa dirigido pelo irregular John Lee Hancock, acerta primeiramente na abordagem ao casal de criminosos, que são retratados como ícones, seus rostos não são mostrados, são partes do corpo, ou ambos de costas, sempre filmados de longe, artifício que ressalta o distanciamento dos protagonistas em alcançar seus alvos.

Já a dupla de protagonistas é formada por dois homens cansados, aparentando muita fragilidade, parte de um país que não existe mais, que deixaram suas vidas de violência para trás, mas que não perderam o gosto por ela, tudo claramente maquiado como senso de dever. Um problema do longa, reside no fato dos outros policiais parecem completamente incompetentes, só as idéias dos protagonistas parecem surtir algum efeito, tudo obra da longa experiência dos dois (esse sim, um elemento que funciona).

O roteiro escrito por John Fusco desenvolve com muita qualidade os dois personagens, seja em conversas, na implicância sadia que um tem do outro ou no entrosamento demonstrado nos momentos mais tensos, fruto dos anos que trabalharam juntos. Mostrando que mesmo para  os mais durões, aqueles dispostos a quebrar as leis e principalmente sua própria moral para cumprir seus objetivos, também sofrem consequências.

Muito da qualidade do filme reside no trabalho dos atores que interpretam a dupla. Kevin Costner encontra o tom certo de um personagem serio, carrancudo, que interioriza seus sentimentos. Costner consegue construir uma empatia, em um personagem que sem essa característica poderia não funcionar dentro da narrativa.

Já o sempre carismático Woody Harrelson faz o personagem falastrão (sem nunca soar exagerado), que parece carregar o peso do mundo nas costas, característica ressaltada pelo seu andar arrastado. É o policial mais boa praça, que funciona como centro moral e expositivo da dupla. É ele quem sempre questiona e exterioriza os dilemas morais dos homens em sua posição, em termos de roteiro, funciona quase como um tradutor dos sentimentos do personagem de Kevin Costner. 

                                                  Spoilers no proximo parágrafo.

Tendo uma história de final já bastante conhecido, a maior proeza de Estrada Sem Lei é  criar uma narrativa que não tem sua apoteose na morte do casal, mas sim na incrível cena em que os dois policiais observam das sombras, do outro lado o espelho, a população tentando um último contato com seus ídolos, que agora sim, após a morte, tem seus rostos mostrados. É o fim do mito na abordagem de seu diretor, mas para o povo, ali começava a lenda. 

Felipe Fernandes

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