Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos

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Idem, 2019. De João Salavia e Renée Nader Messora. Com Raene Kôtô Krahô e Henrique Ihjãc Krahô

Ao sentar na sala de cinema, alguns minutos antes do início da sessão, me peguei pensando sobre o que eu sabia ou esperava do filme. Havia lido a sinopse que falava que o filme era sobre um jovem Krahô, que após uma experiência com o espírito de seu falecido pai se vê na obrigação de realizar as celebrações de passagem, uma festa de fim de luto. Me dei conta de que eu não esperava nada, nunca havia ouvido falar nos Krahô, não sei praticamente nada sobre os índios e, honestamente, naquele momento o quanto me importava era muito próximo ao nada também.

Eu sabia tão pouco que, imediatamente presumi que o filme seria um documentário e me peguei confusa e surpresa, demorei até vários minutos pra entender que não, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, não é um documentário, é muito mais. É encenado pelo povo Krahô, que interpreta a si mesmos alternando momentos ficcionais com documentais. O que já seria, por si só, um feito sem precedentes, ganha contornos ainda mais interessantes por ser quase que inteiramente falado no idioma Krahô, sem ser um documentário.

Somos transportados para o interior do Tocantins, onde a cineastas brasileira Renée Nader Messora e o português João Salaviza, passaram 9 meses filmando, em uma comunidade com cerca de 3500 indígenas. Como esperado, de cara, tudo é muito diferente, principalmente o tempo. O tempo que se leva para falar, para realizar um trabalho, para ter uma conversa. Há uma ausência de pressa no realizar das atividades, no viver em sí, que nos causa um desconforto imediato, um incômodo pela lentidão por sentir esse tempo transcorrer, de forma quase palpável, sem preenchê-lo como estamos acostumados a fazer. Os diretores se apropriam desse tempo e o deixam transbordar para a tela.

Os protagonistas Ihjac Kraho e Koto Kraho, nos levam para dentro de seu mundo, onde no seu tempo, nos contam a história de Ihjac, que encontra com o espírito de seu velho e falecido pai. Esse encontro tem significados que vão mudar a vida do jovem, mudanças para as quais ele não está preparado. E é interessante ver como existem conflitos muito parecidos com os nossos em sua essência. As dificuldades de enfrentar o futuro e as obrigações, de estar ou não preparado para ser quem precisamos ser e encarar nosso destino, a interminável busca por descobrir quem somos.

O filme de Nader e Salaviza é rico, para além do material sem precedentes, de modo, muitas vezes, sutil, já que utiliza esses “personagens” reais como fio condutor, mas o tempo todo os elementos presentes ao redor deles impactam, desconstroem preconceitos, levantam questões. Tudo nesse filme é mais do que parece ser, do ritmo aos “figurinos”. Há críticas por toda a parte, em muitos detalhes, mas não de forma explícita ou levantando bandeiras, mas de forma a mostrar que esses problemas, essas questões estão ali inseridas nessa realidade, sem que se precise fazer esforços para percebê-las.

De forma imperceptível nos afeiçoamos a eles e à sua rotina, seus costumes, tanto que quando o jovem chega à cidade, fugindo de seu destino, imediatamente questionamos suas escolhas. Já que a essa altura do filme, a vida na aldeia já nos parece muito melhor e parece loucura querer trocar a paz da aldeia e dos seus, pelo caos e pobreza da cidade, uma pobreza não é só financeira, mas de costumes e valores. Somos contaminados pela cantoria, pela tradição, pelo tempo, pela natureza ao redor. É quase possível sentir o cheiro da chuva.

Quantas vezes ouvimos, pensamos, até mesmo falamos coisas do tipo “Ah, índio com celular”, “De calça jeans”, etc. Tem uma pergunta muito interessante levantada por esse filme que vai de encontro a esses nossos preconceitos, que é sobre identidade. O que é ser índio? O que é ser Krahô? O que é ser brasileiro? Quais são os elementos que constituem nossa identidade, que fazem de nós quem somos? Certamente fica nítido, que o uso de roupas, o uso do telefone, de utensílios, não faz dos Krahô menos indígenas.

De acordo com a FUNAI(Fundação Nacional do Índio) são aproximadamente de 225 povos indígenas, 70 tribos vivendo ainda em lugares isolados. Esse filme é a triste constatação de que não sabemos absolutamente nada da nossa própria história, da história do nosso povo. Olhamos sempre para os índios como se os portugueses tivessem acabado de chegar, em suas ocas, com penas na cabeça. Esses povos ainda resistem, mas a população indígena também mudou e se aproximou, mas continua sendo massacrado, ainda como se os portugueses tivessem acabado de chegar, sem direito à vida, às suas terras, aos seus costumes.

Eu poderia dizer que o filme é lento, que poderia ter uma edição melhor e ser mais fluído narrativamente, ser mis curto, mas após revisitar o filme em minha cabeça só consigo pensar que nada disso se aplica já que a narrativa se aproxima muito mais da maneira Krahô de ver o mundo do que da minha e os cineastas conseguiram captar isso de forma extraordinária, considerando o quão singular é esse material.

Os prêmios recebidos pelo filme são merecidíssimos, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é uma joia do cinema e sua mistura de ficção e realidade nos ensina sobre um povo que é parte de nós e nos faz questionar e rever o lugar que ele, e tantos outros ocupam no nosso país, na nossa vida. Um filme importante e necessário para conhecer um Brasil esquecido e importante na formação da nossa identidade. com potencial de nos levar para esse território desconhecido que é nossa própria cultura.

Patricia Costa

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