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2019. The Sun is Also a Star. De Ry Russo-Young. Com Yara Shahidi, Jake Choi, Gbenga Akinnagbe, Cathy Shim e Anais Lee

“Nós somos como borboletas que borboleteiam por um dia e acham que é para sempre.”

Cientificamente toda a nossa existência é ínfima e insignificante, do nosso tamanho frente a infinidade do universo à duração da nossa vida em comparação aos bilhões de anos de existência, se pensarmos somente na terra. Mas essa mesma ciência nos fala sobre a relatividade das coisas, inclusive das experiências e das nossas noções de tempo e espaço.

Dentro dessa nossa limitada existência há uma infinidade de possibilidades de crenças e personalidades. Daniel Bae é um romântico inveterado, que acredita em amor à primeira vista e no destino, que sonha em ser poeta, mas está atrelado aos desejos de sua família de imigrante coreanos, super tradicionais, e que há muito determinaram o destino dele. Escola, amigos, planos para o futuro, emoções intensas, música, uma certa independência, a típica vida de adolescentes em grandes cidade.

Assim como Daniel, Natasha Kingsley, é uma típica adolescente nova iorquina, não fosse o fato de ser jamaicana e de sua família estar sendo deportada. Yara Shahidi, dá vida a jovem que apesar de se dizer racional e tentar usar um olhar científico para o mundo é extremamente passional e têm um olhar extremamente romântico para a vida e suas experiências, mesmo que acredite no contrário. 

A adolescência é o tempo dos extremos, da intensidade de tudo, dos sentimentos, dos amores supostamente eternos, das amizades para sempre, mas também das descobertas, decisões, transformações. Um grupo de seres que anda pelo mundo acreditando saber todas as repostas e poder resolver todos os problemas. E assim Natasha sai pela cidade, dotada da crença que lhe cabe de poder mudar em um dia o seu destino e o de sua família.

O filme é construído para colocar o dois em rota de colisão. Ao ver Natasha pela primeira vez, convencido por uma porção de detalhes de que existe algo de especial na menina, Daniel corre para alcançá-la, mas quis o destino ou o roteirista que esse encontro estivesse envolto em uma série de acontecimentos interligados de alguma forma, que vão além do que justificaria o amor a primeira vista, mas acabam se mostrando muito mais significativos.

Desde o primeiro cartaz, sabemos que se trata de uma comédia romântica voltada para um público infanto juvenil, que é adepto dos amores e amizades eternas, é intenso e acredita saber todas as respostas, então o desenrolar pouco crível do filme em coincidências, em amores à primeira vista, e conexões imediatas intensas não parece absurdo ao considerarmos o público alvo e a temática desenvolvida.

A verdade é que, acreditando ou não em destino, verdadeiro amor ou amores eternos, são caminhos possíveis e por mais questionáveis que pareçam, elas fazem total sentido dentro da proposta do roteiro e da narrativa, que são nitidamente construídos através desses caminhos. E, além disso, o que determina a duração ou a intensidade de um sentimento? Tudo é relativo, então talvez não seja absurdo acreditar que em uma situação intensa e extrema como a relatada no filme as pessoas sejam capazes de sentir mais do que em um dia normal.

O ponto fora da curva nesse filme, não é o romance em questão ou o desenvolvimento dele, que é bastante previsível, mas os caminhos seguidos para além dele, que são interessantes e eu diria que raros em filmes do gênero.  O filme é extremamente político, não de uma maneira que levanta bandeiras, mas maior, sendo uma enorme bandeira em sua construção, ao escolher como protagonistas dois jovens imigrantes, com trajetórias diferentes, em que uma das histórias gira ao redor da deportação de um deles, mas além disso, ao usar suas culturas como ponto de encontro, explorando em imagens e situações um lado de Nova York que normalmente fica de fora dos filmes, principalmente de romances.

A cidade é um personagem tão importante quanto os dois protagonistas e é reverenciada em uma fotografia belíssima ao longo de todo o filme, com várias longas tomadas da cidade e de seus imigrantes simplesmente existindo. Essas imagens geralmente vêm junto com uma trilha que é extremamente interessante, pois reflete muito a origem dos dois personagens, tendo várias músicas coreanas e africanas em sua composição, possibilitando não só uma conexão com seu público, já que é extremamente atual, mas mais uma vez projetando a multiplicidade da metrópole.

O diretor, Ry Russo Young, parece ter um olhar próximo ao olhar adolescente, porque, além da trilha, acrescenta um dinamismo em conteúdo, que muito se assemelha há alguns canais de youtube, com explicações sobre o mundo e seu funcionamento, que, mais uma vez, parece ser um ponto de conexão com o seu público alvo, então acho um mérito grande o resultado final.

Para um romance adolescente o filme é extremamente rico em questões, já que além da imigração também aborda, sem se aprofundar, mas de forma a mostrar que esses temas fazem parte do cotidiano, diferentes assuntos extremamente relevantes, questões culturais, a relação com os pais, sexualidade, a importância das escolhas, o questionamento sobre o que a palavra lar quer dizer, entre muitas outras pequenas coisas presentes.

Mas obviamente nem tudo são flores e o filme tem muitos problemas, de roteiro inclusive, já que consegue “perder” sua protagonista, desconstruindo rápido demais a menina que acreditava ser racional, forte e determinada construída no primeiro ato. E nem todas as “coincidências” fazem sentido, soando muitas vezes, como “Aaaah, não! Isso é coisa de filme” e beirando o absurdo, mais pela solução dada para apresentar a situação do que pela escolha da situação em si.

Pessoalmente sou mais cética com relação ao amor, então acabo me afastando dos caminhos escolhidos no que tange a ideia de destino, talvez, também, por não ser o público alvo e ter uma visão diferente de mundo. Porém, com elementos interessantes em sua construção, protagonistas que tem bastante química, um olhar crítico e uma ideia final que, apesar de ser estragada pela última cena, mostra que nem sempre o que planejamos é o melhor e que a vida segue seu curso e ás vezes o que acontece é tão bom ou melhor do que havíamos planejados, o filme é uma agradável surpresa e uma experiência leve o bastante para entreter.

Patricia Costa

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