Rocketman

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2019. Rocketman De Dexter Fletcher. Com Taron Egerton, Richard Madden, Jamie Bell, Bryce Dallas Howard, Max Croes, Charlie Rowe, Stephen Graham e Gemma Jones.

“O inferno são os outros”

Jean Paul Sartre

Vestido de Diabo, com enormes asas vermelhas e pretas, Elton John faz uma de suas entradas triunfais, como se espelhasse aquilo que sua existência construiu. Não só o que se refletia em seu comportamento “diabólico” de Rockstar, desafiador de regras, acumulando pecados e vícios, mas emocionalmente, reverberando o inferno onde se encontrava, repleto de ressentimento, vazio e escuridão.

Estamos condenados a ser livres, moldados a partir de nossas escolhas, de nossas ânsias, de tudo que fabricamos a partir do outro. A expectativa de abraços que nunca recebemos, amores não correspondidos, escolhas feitas em busca de reconhecimento, a vontade de simplesmente ser aceito, ser amado, o medo da rejeição, tudo aquilo que nos molda em angústia e desejo.

Parar e tentar fazer algum sentido do que nos trouxe até onde estamos, talvez seja das coisas mais difíceis que podemos fazer. Geralmente na esperança de fabricar um possível novo caminho, precisamos encarar a nós mesmos, nossas escolhas, motivações e dores, os demônios que nos habitam.

Nenhuma história, jamais, é contada de forma isenta, menos ainda a nossa própria. Ao sentar-se em uma clínica de reabilitação para contar sua história, Elton John se torna o narrador menos confiável possível, fabricando e moldando sua vida em torrentes de sentimentos, muitas vezes embelezando, outras desfigurando fatos, de acordo com sua relação emocional com eles.

Sem nenhuma intenção de ser preciso historicamente e deixando claro o caráter exacerbado e fantasioso de uma experiência repleta de psicotrópicos, o filme desdobra a vida do astro em uma interessante, intensa e, muitas vezes triste, tragédia musical, costurada em canções que servem aos momentos e acontecimentos como recurso narrativo, escolhidas e trabalhadas com impressionante grau de detalhes em uma espécie de simbiose, que impede que o filme seja uma colagem de videoclipes, mas permitindo um fluxo narrativo coeso de um roteiro elaborado e bem pensado.

Taron Egerton é, antes de tudo, Reginald Dwight, o menino gordinho, do nordeste de Londres, com enorme talento musical, que acumulava frustrações e anseios e que, apesar de tímido, sabia bem onde queria chegar. Mathew Illesley e Kit Connor vivem Reggie em diferentes idades e ajudam a construir a relação do astro com a infância, sua conexão com a música e o relacionamento com os pais, que costumam ser arquitetos habilidosos na construção de infernos pessoais.

Acompanhamos de perto o rapaz matar quem ele era, pra se tornar quem ele queria ser, mas além da escolha de um novo nome, o processo de transformação acontece, brilhantemente, de forma gradativa, enquanto vemos, não só Reginald, mas Taron se transformar em Elton John, cena após cena, música após música.

Mais do que mimetizar o astro, Egerton parece ter entendido, ter se conectado à essência do personagem, o que possibilitou uma atuação honesta, cheia de nuances, com o ator cantando todas as músicas ele mesmo, de forma que é possível ver o surgimento do astro em sua magnitude e ao mesmo tempo perceber as lutas e dores por trás das fantasias e do brilhantismo do artista. Egerton está tão bem que em vários momentos é possível confundir os dois.

É um filme que consegue de forma impressionante ser consciente de sua parcialidade, de seu delírio e, na mesma proporção, ser honesto ao abordar uma vida de abuso de álcool e drogas repleta de questões sexuais e problemas emocionais, sem explorar isso mais do que deveria, ou explicar nada, está tudo ali, mas sempre de forma orgânica, intrínseca ao desenrolar dos fatos. O que fala muito, tanto sobre a obra, quanto sobre o artista, que fez questão de que o filme tratasse abertamente da sua vida sexual e de seus vícios.

Rocketman é tão especial em sua construção que consegue ressignificar uma das maiores músicas de amor de todos os tempos, nos tirando do lugar comum do amor romântico, ao qual sempre a associamos e expandindo essa fronteira em uma sequência de acontecimentos que determinam, se ainda não estava claro, que o filme e sua trajetória não são sobre Elton exclusivamente e que, tão relevante quanto a abordagem mais verdadeira, é entender que a história de Elton não é só sua, mas a história de suas relações, desses outros que fazem parte de quem ele foi e de quem se tornou e o quanto impactaram em sua vida. Dos relacionamentos mais conturbados e frustrantes como o com os pais, vividos por Bryce Dallas Howard e Steven Machintosh, ao mais duradouro e especial, como a amizade de mais de 50 anos com Bernie Taupin, ao lado de quem o músico começou a sua carreira e com que fez a maioria de suas músicas. Amizade à qual o filme parece fazer uma grande reverência e cuja presença parece crucial para entender muita coisa.

A vida está repleta de momentos extraordinários e as vezes quase conseguimos sentir a magia nas experiências que vivemos. A música tem um poder incomparável de nos fazer sentir, transcender. É capaz de nos tirar do chão, de nos fazer levitar, de nos fazer sonhar. O diretor Dexter Fletcher capta muito bem essa essência e potencializa esses momentos na tela em explosões de sentido, visuais e auditivos, com cenas simplesmente deslumbrantes.

A direção é um grande destaque no filme. Há um controle e precisão na construção de cada cena, seja ela musical ou não, os momentos estão sempre envoltos nas emoções certas para cada situação, a ambientação e a direção de arte arrematam o trabalho construído por uma direção majestosa, que brilha tanto quanto os coloridos e chamativos figurinos, que estão perfeitos e são a cereja do bolo.

Uma vida vivida atrás de luzes e lantejoulas, de máscaras moldadas em sorrisos e performances espetaculares. Rocketman combina, de forma inigualável, o que há de fantasioso em um musical com uma cinebiografia franca, sensível, capaz de emocionar e surpreender com a dureza da vida real, repleta de dor, vazio e solidão, nos bastidores da riqueza e do glamour do sucesso.

Vai muito além do delírio do rockstar em sua viagem por uma vida de drogas e abuso de substâncias, mas caminha pela busca do entendimento de sua existência frente a esse outro que o constrói e através do desmonte do Diabo em asas vermelhas, nos mostra o quanto de desconstrução as vezes é preciso para não seguir os passos de Norma Jean, mas para sair do outro lado e poder dizer que continua de pé.

Patricia Costa

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