2019. Rocketman De Dexter Fletcher. Com Taron Egerton, Richard Madden, Jamie Bell, Bryce Dallas Howard, Max Croes, Charlie Rowe, Stephen Graham e Gemma Jones.
NOTA_5 Cheese

Você precisa matar quem você é, para se tornar quem você quer ser.

Na primeira imagem que temos de Elton John, ele surge rompendo uma porta, vestido como um demônio vermelho, em uma roupa bem extravagante, percorrendo um corredor, com um contra luz de fundo que ressalta a figura majestosa do cantor. Ao contrário do que se supõe, ele adentra uma sala, onde se encontra um grupo de auto ajuda.

Essa é a dinâmica adota pelo roteiro de Lee Hall (Cavalo de Guerra), usar esse ambiente de exposição como ponto central, com a história sempre voltando a esse grupo, tornando o espectador um ouvinte, onde o próprio protagonista vai relatar toda sua trajetória, desde sua infância reprimida, passando pelo rápido sucesso  e o peso da fama.

Rocketman é uma biografia intimista, que não tem vergonha de seu protagonista e de seus excessos. Misturando boa música com delírios visuais que têm como base sua música e seus sentimentos, não apenas suas alucinações decorrentes das drogas.

 Ao usar o próprio cantor como narrador, a história ganha seu ponto de vista, permitindo assim algumas liberdades narrativas decorrentes das memórias e sentimentos do biografado, uma decisão acertada, que permite uma construção visual mais ousada e justifica muitos dos “exageros” do longa, intensificando esse tom intimista da jornada de Elton John.

 Começando com um número musical que traz a infância do personagem, em um ambiente desprovido de cor, onde somente o jovem Elton apresenta coloração, o filme já demonstra como aquela criança é deslocada daquele lugar. Vivendo em uma família destruída, com um pai ausente, que nunca lhe dá carinho e uma mãe, mais preocupada com si mesma, o jovem têm como fuga os discos de jazz do pai, uma forma de se conectar com ele e com o piano da família, onde ele é estimulado pela avó, único membro da família com olhares pro garoto.

A música funciona como escape e gradativamente vai se tornando uma forma de expressão.  Após se tornar pianista de uma banda que roda o interior do país, ele ouve de um cantor a frase que abre esse texto, esse é o ponto de transição, sai Reggie Dwight (nome de batismo de Elton) e surge Elton John, o rockstar.

O grande conflito do personagem é ser aceito, nada mais natural que a história tenha como base seus relacionamentos. Dois dos principais são com seu grande parceiro e amigo (até os dias de hoje) Bernie (interpretado por Jamie Bell) e com sua primeira paixão, John Reid (Richard Madden), que veio a se tornar seu empresário, em uma relação de abuso, fruto da ganância de Reid. São por essas relações que o filme trafega, misturando muita música, com números musicais empolgantes, mostrando o sucesso rápido e estrondoso do artista por todo o mundo.

Vale destacar a cena do Troubadour, uma tradicional casa de shows em Los Angeles, onde Elton John fez seu primeiro show em solo americano e dentro de toda expectativa, a sequencia é arrebatadora e funciona muito bem para justificar o sucesso explosivo do artista. É uma cena importante, para provar toda a força das músicas e dos shows do cantor.

A partir desse ponto, o filme se torna um pouco previsível. Mostrando a ascensão, sucesso, o dinheiro, passando para as festas intermináveis, os excessos que vão afetando o protagonista e consequentemente, a todos a sua volta. Explode a verdade de seu relacionamento com Reid, levando Elton para o fundo do poço. Uma dinâmica padrão para esse tipo de biografia, tirando muito da força da segunda metade.

Tecnicamente, o filme tem um bom ritmo, uma montagem dinâmica, um visual caprichado, seja pelos figurinos espalhafatosos e coloridos do protagonista, seja pelos números musicais cheios de energia. A direção de Dexter Fletcher é competente, consegue criar o espetáculo visual digno do personagem, na medida certa, sem perder a mão nos exageros. Até mesmo aspectos mais polêmicos da vida de Elton são abordados, mas o filme não fica martelando na cabeça do expectador seus vícios a todo momento, um acerto de não fugir das polêmicas, mas não fazer a obra funcionar em torno delas. 

Um dos grandes destaques do filme é a entrega do ator Taron Egerton (Kingsman – Serviço Secreto), o inglês já havia provado seu carisma, mas aqui ele mostra que entendeu a essência do personagem, criando uma figura complexa, repleta de facetas e que nunca soa como uma mera imitação do cantor. Destaque para o fato de ser o próprio Egerton quem canta as músicas, uma decisão sempre acertada, que intensifica as performances e a força dos numero musicais.

Em um determinado momento do filme, uma personagem encontra Elton em um momento de depressão e comenta que ele é muito corajoso, pois suas músicas soam muito pessoais e é a mais pura verdade. O filme reforça essa sensação e trabalha as músicas de forma a se encaixarem dentro da narrativa, mostrando o cuidado e o respeito com o trabalho de Elton, tornando as músicas mais que apenas momentos musicais dentro de um filme repleto deles, mas permitindo um avanço da história e desenvolvendo os personagens através delas.

Curioso, que o letrista das músicas, não seja próprio Elton John, mas sim seu eterno parceiro Bernie Taupin, reforçando como os dois se entendem e se completam como compositores.

Interessante também é a forma como acompanhamos as mudanças de Elton dentro do grupo de auto ajuda. Ele chega com sua já citada roupa de demônio e vai se despindo aos poucos, chegando ao final com roupas comuns. O desfecho do longa é a sua vitória contra os vícios, mas quem vence essa luta, não é a estrela Elton John, mas sim o frágil Reggie Dwight, que sai de sua casca para confrontar seus demônios e principalmente seu passado, desprovido de seu personagem. Chega o momento que você precisa ser quem você é.

Rocketman é uma biografia interessante, com momentos empolgantes e um final anticlimático, mas que permite conhecer o início da trajetória do homem foguete. Pode-se medir o sucesso de uma biografia musical, pelo desejo do espectador ao final do filme, de seguir para casa e ouvir as músicas do biografado. Nesse teste, o filme é muito bem sucedido.

Felipe Fernandes

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