Assine RATOS2

2018. The Man Who Killed Dom Quixote. De Terry Gilliam, com Jonathan Pryce, Adam Driver, Olga Kurylenko, Stellan Skarsgard, Joana Ribeiro, Jordi Mollà, Rossy de Palma e Robert Duvall.

NOTA_3 Cheese

Quixote Vive!

Personagens que vivem a margem da sociedade, imersos entre a fantasia e a realidade, são estes os principais elementos do cinema do diretor Terry Gilliam. Obras como Brazil, O Pescador de Ilusões e Os Doze Macacos, jogam com essa desorientação de seus personagens, criando uma mistura fantástica, que traz um pouco de magia para uma realidade tão miserável. Pensando neste elementos, fica fácil entender a paixão fulminante que Gilliam teve pelo clássico Dom Quixote de Miguel de Cervantes.

Porém, mais surreal que a história, se tornou a odisséia de Gilliam para levar as telas esse projeto. Existe até mesmo um documentário de 2002, Perdido em La Mancha, que narra parte de toda a situação. Foram trinta anos para tirar do papel e apresentar ao mundo sua visão do Cavaleiro Andante.

Entre problemas financeiros, catástrofes naturais, problemas de saúde do elenco e questões judiciais, Gilliam perseverou e traz as telas o projeto de sua vida, uma obra com elementos comuns em sua filmografia, repleta de metalinguagens e mesmo que tenha problemas, mostra a paixão de seu diretor pela história, fator primordial para a existência do filme.

Na trama, Toby (Adam Driver), um jovem e famoso cineasta está filmando no interior da Espanha um filme sobre Dom Quixote (Pryce). Após uma reunião, ele encontra uma espécie de ambulante vendendo seu primeiro filme, um longa amador justamente sobre Dom Quixote, coincidentemente filmado anos atrás naquela mesma região. Essa revisão traz a ele lembranças da liberdade criativa de sua juventude e ele resolve revisitar o vilarejo onde rodou seu primeiro filme, entrando em um espiral de loucura onde sua trajetória e do personagem título de seus trabalhos se confundem.

Gilliam cria uma narrativa repleta de personagens que funcionam como sátiras dos estereótipos comuns em Hollywood. O protagonista Toby, de certa forma representa o próprio diretor, cansado daquele universo vazio, controlado pelo dinheiro. Existe o produtor inescrupuloso, o investidor que é praticamente um mafioso, os membros de equipe bajuladores, criando um universo bizarro.

Ao se reconectar com seu passado, ele volta para o pequeno vilarejo e descobre que seu filme amador mudou drasticamente a realidade daquelas pessoas. O mundo de sonhos, a promessa de um mundo mágico pra fugir daquela realidade medíocre, mudou a vida dos envolvidos, mas não de uma maneira positiva.

É uma narrativa com momentos tristes, onde a promessa não cumprida de um mundo de magia, fez com que as pessoas se perdessem. É a visão de Gilliam da perdição decorrente dos fracassos anteriores. A crueza do mundo, da realidade vencendo a fantasia. A partir do reencontro com seu Dom Quixote original, Toby entra em uma jornada de loucura, onde passado e presente, fantasia e realidade se misturam em cenas criativas, insanas e algumas que destoam dentro dos delírios do diretor.

O filme tem um ritmo irregular, as diferentes cenas destoam entre grandes momentos e outros não tão inspirados, que causam uma confusão em alguns momentos e mesmo que essa confusão possa ser intencional, ela prejudica a experiência. O roteiro também usa de coincidências demais para mover a trama, artifício que sempre enfraquece a história.

Gilliam é um cineasta criativo, que faz um cinema artesanal, de efeitos práticos, com cenários e figurinos que chamam a atenção pelos detalhes. Aqui, os cenários ficam em segundo plano, provavelmente para baratear a produção. Usando as locações e permitindo usar sua inventividade nos figurinos, o diretor e seu fotógrafo Nicola Pecorini, fazem uso de lente grande angular, que permitem explorar a grandiosidade das locações, ao mesmo tempo que distorcem a imagem, utilizando essa estética para ressaltar o tom fantasioso.

No elenco, mesmo que não prejudique, Driver não tem o carisma necessário para o papel. É difícil comprar a loucura de seu personagem e talvez um ator mais expressivo agregasse mais. A portuguesa Joana Ribeiro interpreta o par romântico e a musa de Toby, intercalando doçura com força, ela constrói uma personagem interessante, que cresce muito na trama. Fechando o elenco, o veterano Jonathan Pryce encarna Dom Quixote com a qualidade que lhe é peculiar. A sua entrega é fundamental para a crença do espectador de que aquele sapateiro, realmente acredita ser o Cavaleiro Andante.

Se Toby, funciona como uma representação do artista em meio a máquina hollywoodiana, o Dom Quixote é a representação da paixão de seu diretor não só por essa história, mas por toda a fantasia, que no cinema de Terry Gilliam, é a única fuga possível da terrível realidade. Com sua perseverança, o diretor conseguiu realizar seu filme, uma conquista enorme, de um artista que não desistiu de sua paixão, mesmo que a vida tenha se esforçado bastante para fazê-lo desistir.

Felipe Fernandes

Curta nossa página no Facebook, Youtube, Twitter e Instagram e participe! Deixe sua opinião sobre o filme neste post ou nos mande um e-mail dizendo se concorda ou discorda da gente, deixando sua sugestão ou crítica: contato@ratosdecinema.com.

catarse LOGO
Patreon_LOGO
Anúncios