Chernobyl (HBO)

2019. Idem. De Johan Renck. Com Stellan Skarsgard, Jared harris, Emily Watson, Paul Ritter, Jessie Buckley, Adam Nagaitis, Adrian Rawlins e Ralph Ineson.

O trágico acidente na usina nuclear de Chernobil, foi um evento marcante, de extrema relevância para o cenário político global da época, pois foi um dos fatores determinantes para o final da União Soviética e consequentemente da Guerra fria. Talvez por questões políticas, ainda hoje é um evento muito pouco difundido e explorado pelo cinema e pelos demais tipos de arte.

A minissérie da HBO chega na ressaca do final de Game oh Thrones e se estabelece como um dos destaques do ano. Com uma recriação de época impressionante e levando ao grande público informações que não eram de conhecimento geral – a série é uma ficção sóbria, que não busca espetacularizar o ocorrido e acaba funcionando quase como um documento da época.

Chernobyl funciona como um filme de pouco mais de 5 horas e engloba três frentes: o acidente e as consequências imediatas, principalmente aos trabalhadores da fábrica, aos bombeiros que atenderam o chamado do acidente e a população de Pripyat, pequena cidade ucraniana, que fica próxima da fronteira com a Bielorrússia e foi criada unicamente para abrigar os trabalhadores de Chernobil.

Toda luta de diversos trabalhadores e do governo soviético para conseguir lacrar o núcleo exposto e impedir que ele continuasse a expelir radiação, o que poderia se estender por toda a Europa, matando a longo prazo um número incontável de seres vivos. E por último a investigação para descobrir o que de fato gerou o acidente.

Os dois primeiros episódios, são realmente assustadores. Partindo diretamente do momento do acidente, a situação é retratada de forma crua, as pessoas sem conhecimento de nada, não fazem a menor noção da gravidade da situação e os efeitos são devastadores. A sensação de perigo no ar é permanente, causando bastante incômodo ao espectador e a forma real como tudo é retratado, ressalta essa sensação.

O roteiro do criador Craig Mazin é inteligente, ao trazer como protagonistas dois personagens reais e uma personagem que é a síntese de vários cientistas da época. Os personagens reais são um químico inorgânico e um político que não entende nada da situação, fazendo assim com que tudo precise ser explicado ao personagem e consequentemente ao espectador e mesmo os momentos que exageram no didatismo, se mostram necessários para que possamos entender a real gravidade da situação e de como tudo poderia ter sido ainda muito pior se não fossem os esforços de vários homens que se sacrificaram para resolver a situação.

Os esforços de vários homens em meio a uma situação inédita e tão delicada, correndo em segredo, pois o governo soviético não poderia admitir publicamente a gravidade da situação, mostram o quanto a política e os interesses são predominantes sobre vidas humanas, um problema que não é de exclusividade da União Soviética.

Uma das características mais importantes da série é trazer luz a um evento tão marcante que é muito pouco explorado. Acredito que não exista na sétima arte um projeto que aborde o acidente dessa forma. A recriação de época impressiona, até mesmo críticos russos que têm sérias discordâncias com o conteúdo da minissérie se impressionaram com o nível de detalhamento na reprodução da comunidade da época.

Meu maior incômodo com a série e pode soar preciosismo (mas neste caso não acredito que seja), é o fato dela ser falada em inglês. Comercialmente, é perfeitamente justificável, afinal é da HBO e a língua inglesa permite uma abrangência de público maior, mas para um trabalho que se aprofunda tanto nos detalhes, ter sido realizado na língua original me parece fundamental, sem falar que seria de uma coragem ainda não vista na TV.

A fotografia de Jakob Ihre trabalha com cores saturadas, trazendo um aspecto da falta de vida que já parecia afetar o local antes mesmo do acidente.

O elenco é praticamente formado por atores de pouca expressão, uma decisão acertada, que torna ainda mais real o drama daqueles personagens. Trazendo apenas como atores renomados o trio principal, que se mostra essencial para a compreensão de toda a situação e seu desfecho.

Chernobyl é um trabalho assustador e vai além do entretenimento ao trazer informações sem exageros sobre um evento histórico pouco difundido. Importante ao enaltecer verdadeiros heróis que deram suas vidas para controlar a situação, ao dar voz as vítimas e principalmente, ao não vilanizar personagens, mas sim apontar como culpado todo um sistema de falhas, mentiras, desinformação e omissões de um governo mais preocupado com sua imagem perante ao mundo e principalmente perante aos seus.

Felipe Fernandes

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