2019. Idem. De Petra Costa.

O que fazer quando a máscara da civilidade cai?

Conheci o cinema da mineira Petra Costa em 2015, através do seu primeiro longa, Elena. Um retrato intimista e corajoso de três mulheres, a própria diretora, sua mãe e sua irmã que dá título ao filme, em uma jornada de auto conhecimento, amor, perdas e dor, que faz dele, um dos melhores documentários que eu já assisti.

Seu novo trabalho, Democracia em Vertigem, lançado diretamente pela Netflix, após fazer sucesso em alguns festivais pelo mundo, faz um retrato político do país, mas traz assim como em seu primeiro filme, esse aspecto intimista.

Fazendo um paralelo com a democracia do país pós ditadura, que tem praticamente a mesma idade da diretora, ela usa sua história familiar e percepções como base para costurar o complexo momento da política brasileira, desde o fim da ditadura, até a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro.

Mais uma vez fica claro quão corajosa é a diretora, em um país dividido como o nosso, ela se expõe e grande parte de sua família, sem citar nomes, apenas seus pais são mencionados diretamente e usa para mostrar que essa polarização não é algo recente, ela só vêm ganhando força e vozes.

Por se tratar do ponto de vista da diretora, ela desde o princípio deixa claro seu posicionamento político, seja por imagens de arquivo ou pela narração feita pela voz melancólica da diretora, uma decisão que se mostra acertada, pois a grande força do documentário está na visão da mesma sobre os acontecimentos.

Esse paralelo, entre a idade da diretora e a redemocratização mostra muita como sua geração cresceu, tendo a ditadura como um fantasma distante do passado, quase como uma outra realidade.

Essa geração, é exatamente a que começa a exercer sua direito de voto na mesma época da primeira eleição de Lula, época em que o país teve um crescimento em diversas áreas, mostrando o poder da democracia e o deslumbramento de jovens que apenas engatinhavam nessas questões políticas.

Partindo desse ponto, o longa faz um apanhado da política até os dias de hoje, dando ênfase maior ao período da queda da presidente Dilma e aos eventos que sucederam, passando pelo papel da imprensa e das redes sociais em todo esse processo, culminando nas últimas eleições. Portanto, se trata de um período bem recente, conta muito a favor como esses acontecimentos estão frescos na cabeça de quem acompanha a política nacional.

A montagem do filme é impressionante. Condensar tanto material em uma narrativa fluida e de fácil compreensão, abordando tantas questões, sem nunca perder o foco ou a linha narrativa estabelecida pela diretora, é de uma complexidade absurda.

O longa traz imagens impactantes, desde imagens de arquivo, passando pelos conflitos em manifestações, até depoimentos de ambos os lados, passando por um depoimento em especial, de uma faxineira que limpa uma das escadas do Palácio do Planalto antes da cerimônia de posse do ex-presidente Temer.

O acesso que a diretora teve aos bastidores do PT trazem imagens raras e inéditas que mostram muito sobre os momentos que passaram os ex-presidentes Lula e Dilma. Um momento que merece destaque é a conversa entre Dilma e a mãe da diretora, mesmo que nunca houvessem se encontrado, ambas compartilham de várias similaridades, duas desconhecidas que parecem lembrar momentos, quase como se houvessem os vivido juntas.

Mesmo se tratando de um documentário político, a diretora consegue expressar sua estética evocativa e poética, provavelmente nos cenários mais frios que se possa encontrar nesse país. Trazendo imagens lindas, ancoradas pela beleza arquitetônica de Brasília, Petra se permite trazer beleza a um estilo de documentário geralmente muito frio, mostrando o olhar de uma artista nata, que encontra beleza em locais improváveis.

Democracia em Vertigem se mostra um documentário importante, que certamente vai ganhar mais relevância com o distanciamento temporal dos fatos narrados. Em um futuro não tão distante, vai se tornar obrigatório para quem busca entender um pouco ou estudar o momento em que estamos vivendo.

O longa termina fazendo uma importante reflexão sobre como o país vêm a gerações sendo dominado por algumas famílias que apenas acompanham a dança das cadeiras dos políticos e quando é de seu interesse interfere, mostrando como tudo isso está longe de terminar.

Felipe Fernandes

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