2019. Idem. De Leonardo Domingues. Com Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Caco Ciocler, Leandro Hassum, Mariana Lima, Silvio Guindane, João Velho, Luciano Quirino e Bruce Gomlevsky.

Filmografias musicais estão na moda. O cinema nacional de certa forma, até antecipou um pouco essa onda que vêm forte no cinema americano. As biografias de Tim Maia, Elis Regina e Erasmo Carlos (pra citar os mais famosos). Têm até uma curiosidade pois ao retratar músicos que surgiram mais ou menos na mesma época e inevitavelmente se conheciam, acabam por adaptar os mesmo personagens em situações muito parecidas. Fica a sensação de já termos visto parte do que está sendo mostrado.

Agora chega aos cinemas Simonal, a cinebiografia de um dos cantores mais controversos da década de 60. Dono de um inegável carisma e uma voz marcante, Wilson Simonal teve uma ascensão meteórica e teve sua carreira encerrada precocemente durante a ditadura militar, quando o cantor foi acusado de um crime, teve sua imagem associada ao DOPS e passou a ser boicotado por toda a classe artística.

A verdade, é que até hoje Simonal é pouco lembrado, se comparado a alguns de seus parceiros da época. Mesmo que vez ou outra escutemos suas músicas, sua figura foi ficando no esquecimento. Eu mesmo, tive um primeiro contato com o rei da pilantragem através do documentário Simonal: Ninguém Sabe o Duro Que Dei (2009), que teve como um dos montadores Leonardo Domingues, e que faz aqui sua estréia como diretor em longas.

O filme aborda a vida do cantor desde seu encontro com o famoso radialista Carlos Imperial (Hassum), passando por sua ascensão e enorme sucesso, até os problemas financeiros decorrentes dos excessos e de toda a situação que levou ao fim da carreira. Mais do que apenas narrar a história, o filme busca elucidar toda a situação e dar uma espécie de direito de defesa ao já falecido cantor.

O longa abre com um grande plano sequência, eficiente em mostrar o clima de um bar repleto de artistas. Utilizando imagens da época, a recriação através dos figurinos e do design de produção é bem realizada e convence.

O roteiro escrito por Victor Atherino, tem uma estrutura bem convencional. A primeira metade do longa mostra seu relacionamento com a esposa Tereza, o sucesso, os excessos, a mudança de status (era o negro da favela ganhando o país), tudo repleto das canções que o fizeram um dos maiores nomes da música daquele período.

Apesar das músicas, o filme não tem nenhuma cena musical marcante, um pecado dentro de um filme que têm a música como elemento primordial. A cena mais marcante fica por conta de outro plano sequência que funciona muito bem para mostrar a irreverência e o poder de Simonal com o público de seu programa de TV.

Contando com um ritmo irregular, a segunda metade já busca mostrar os conflitos do protagonista. Chega o momento em que a realidade do país e sua condição como negro que atingiu as massas começam a criar questionamentos no personagem. Um elemento importante que traz reflexões relevantes sobre o racismo para a época e para os dias de hoje, mas que infelizmente é pouco aprofundado pelo filme.

Um ponto que merece destaque é a situação com os militares que é retratada sem amenizar os erros do cantor. Simonal em sua arrogância foi diretamente responsável pela situação e o filme não busca esconder isso, uma decisão corajosa e fundamental para o funcionamento do filme.

Simonal é interpretado pelo ator Fabrício Boliveira (Faroeste Caboclo, Tungstênio), que consegue transmitir o carisma do personagem, mesmo que não tenha o sorriso cativante do cantor. Um ponto que sempre me incomoda em cinebiografias, é quando o ator simplesmente dubla as músicas, não entregando uma performance vocal, elemento que sempre engrandece a interpretação, mas que aqui, não acontece.

Repetindo a parceria de Faroeste Caboclo, Isis Valverde interpreta Teresa, a esposa de Simonal. Uma personagem desinteressante que passa por muitas mudanças que nunca são justificadas pelo roteiro.

Simonal é uma cinebiografia honesta, que busca esclarecer toda a situação e resgatar a figura do cantor para o grande público. Mas seu maior problema como filme, é o de não conseguir ter a mesma irreverência e a malandragem do cantor. Falta um pouco do swing que ele tanto gostava.

Felipe Fernandes

Curta nossa página no Facebook, Youtube, Twitter e Instagram e participe! Deixe sua opinião sobre o filme neste post ou nos mande um e-mail dizendo se concorda ou discorda da gente, deixando sua sugestão ou crítica: contato@ratosdecinema.com.

catarse LOGO
Patreon_LOGO
Anúncios