2019. Idem. De Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Udo Kier e Karine Teles. 

– Bacurau, é o quê que significa?

– É um pássaro.

– Mas está extinto já né ?! 

     – Aqui não. Mas aqui, ele só sai de noite. Ele é brabo.

O cinema nacional é muitas vezes criticado por não conseguir trabalhar o cinema conhecido como de gênero. Fora as intermináveis comédias e mais recentemente o terror (independente), isso vem mudando lentamente nos últimos anos, mas essa é uma crítica que tem algum fundamento. Eis que chega aos cinemas Bacurau. Premiado em Cannes, o longa mistura pelo menos três gêneros distintos (Faroeste, Ficção científica e Terror), tudo mesclado a elementos da cultura nordestina, região onde é situada a cidade do título. 

Não por acaso, o filme abre com uma imagem de satélite que aponta curiosamente para o nordeste. Em seguida acompanhamos um caminhão pipa cruzando uma esburacada estrada, quando de repente passa por cima de um caixão. São momentos bem distintos, mas que tem nessa mistura a síntese do novo filme do diretor Kleber Mendonça Filho, em parceria com o também pernambucano Juliano Dorneles.    

Um longa que mistura diversos gêneros para contar uma trama em uma pequena cidade no interior de Pernambuco, que após o falecimento de uma de suas mais ilustres e antigas moradoras, a cidade some dos mapas e não demora, estranhos drones passam a cortar os céus da cidade, estrangeiros surgem misteriosamente e a morte chega com rapidez, fazendo com que os moradores se reúnam para reagir.

Escrito pela dupla de diretores, o filme traz uma trama até certo ponto simples, mas que é repleta de pequenos elementos, tudo muito bem amarrado e sem o didatismo comum a maioria dos filmes de gênero. São elementos que parecem levar a trama para um lado, mas acabam tomando caminhos inusitados, permitindo esse mistura coesa de gêneros. sem nunca abrir mão das características da região onde tudo acontece, tornando ainda mais incrível e única essa mistura.

Nos dois primeiros atos, o filme causa uma sensação de estranhamento difícil de definir, parece que algumas coisas não estão no lugar, quase todos os personagens centrais parecem esconder alguma coisa, o espectador é um estranho em meio aquela gente. Muito dessa sensação vêm do trabalho de direção que faz uso de movimentos dinâmicos, mas com poucos cortes, fazendo muito bem o uso do zoom, referência clara dos faroestes, aliados a closes muito bem inseridos, constituindo uma narrativa visual instigante.

Mas é inegável a influencia de John Carpenter que é diretamente citado em sua versão brasileira (a escola do filme leva o nome de João Carpinteiro), o filme traz elementos comuns no cinema do diretor, ao dar protagonismo a personagens excluídos da sociedade e trabalhar situações bem claras de maneira direta e violenta.

Bacurau se mostra uma cidade diferente em diversos aspectos e o passado da cidade é insinuado em pequenos detalhes que vão formando o quadro geral. As instituições não tem força ali. A igreja virou um depósito, uma viatura de polícia é vista abandonada no matagal, toda enferrujada e repleta de buracos de bala e o poder público surge na figura de um prefeito em busca de votos para sua reeleição, mas que é hostilizado pela população.

A cidade inclusive conta com uma espécie de ponto de vigília, que repassa a informação de quem entra na cidade. É uma dinâmica diferente, a cidade tem suas próprias regras, onde cada morador parece compreender sua função dentro daquele micro sistema e mesmo cheios de diferenças que são expostas em vários momentos, os moradores demonstram um forte carinho pelos vizinhos e um senso de coletividade fora do comum. 

Quando forasteiros chegam trazendo violência, é um caminho sem volta. O plot principal gira todo em torno da violência e ela é retratada através das armas de diversas formas. Não por acaso, os estrangeiros lidam de maneiras diferentes, alguns como fetiche, outros como sinônimo de poder. Já para a população a arma é fonte de resistência, de preservação da cidade (não que isso faça deles menos cruéis). É uma crítica a cultura das armas, explorando ao máximo o potencial destrutivo das mesmas.

Não por acaso o museu é repleto de “obras” e fotografias que agem não só como pontos da história local, mas como marcas de luta, mostrando como a violência faz parte da cultura da região (e porque não dizer de todas as culturas, afinal os estrangeiros chegam a sua maneira compartilhando dela). A ligação com o cangaço é imediata, seja por fotografias ou pelo modo de agir daquele povo.

O maior problema do filme, é a forma superficial com que o roteiro trabalha o grupo de estrangeiros. O roteiro acerta em não explicar demais o jogo sádico ao qual eles fazem parte, muita informação fica nas entrelinhas. Alguns diálogos até tentam montar o background para eles, mas são personagens mal construídos, mesmo que tenham uma função muito clara dentro da narrativa.

Contando com diversos personagens, a verdadeira protagonista da história é a cidade e dentro dela alguns personagens se destacam muito pelas grandes atuações. Os veteranos Sônia Braga e Udo Kier entregam atuações intensas e dividem uma cena bem interessante. Os dois grandes destaques são Thomas Aquino, que interpreta Pacote; na cena do seu primeiro encontro com forasteiros, ele surge simpático para logo depois se transformar, revelando muito de sua personalidade e o jogo como seu apelido demonstra muito bem isso.

O outro é Silvero Pereira, que interpreta o violento Lunga, uma espécie de líder de um grupo de assassinos, que é reconhecido por aquele povo como seu protetor. Silvero é muito eficiente em sua construção, com poucas falas e até pouco momento em tela, o personagem se destaca por sua intensidade e violência e a entrega do ator impressiona. 

Não há como negar que Bacurau é uma experiência bem diferente dentro do cinema nacional, um filme extremamente violento, que transita por diferentes gêneros e consegue misturá-los com uma intensidade que impressiona. Existe uma riqueza de detalhes que formam todo um quadro maior, onde entendemos mais do passado daquela cidade e daquelas pessoas, que esquecidas pelo mundo, se fecharam em uma sociedade paralela que sobrevive por suas próprias regras e tradições. É um filme sobre resistência, violência, preservação e apesar de passar em um futuro próximo, traz elementos bem atuais, mostrando que esse futuro pode não estar tão distante.   

Se for, vá na paz.    

Felipe Fernandes

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