2019. Idem. De Danny Boyle. Com Himesh Patel, Lily James, Joel Fry, Sanjeev Bhaskar, Kate McKinnon, James Corden e Ed Sheeran.

I read the news today, oh, boy

About a lucky man who made the grade

And though the news was rather sad

Well I just had to laugh

The Beatles – A Day in the Life

Confesso que tenho um fraco por histórias em que algo desaparece ou deixa de acontecer e simplesmente acompanhamos os desdobramentos dessa mudança. Seja o fim do nascimento de crianças em Filhos da Esperança, a morte dos homens na HQ Y: O Último Homem ou no desaparecimento de todos os mexicanos dos Estados Unidos em Um Dia Sem Mexicanos. Logo, a idéia de um mundo sem os Beatles me chamou a atenção e parando para refletir, o mundo seria razoavelmente diferente. 

Essa é a premissa de Yesterday. Jack Malick (Patel) é um músico e compositor frustrado e  tem como maior incentivadora sua amiga Ellie (James). Após sofrer um acidente, ele acorda em um mundo que nunca conheceu as musicas dos garotos de Liverpool. Ele, então, resolve ficar famoso tocando os inúmeros sucessos do quarteto e apresentando as musicas como suas.

A premissa é interessante e permite a história inúmeras possibilidades, mas algumas questões não podem ser ignoradas. Primeiro, o conflito moral de tal decisão. Afinal, para um compositor, chegar ao sucesso com a musica dos outros, não é necessariamente alcançar o sucesso, mesmo que o retorno financeiro venha. Segundo ponto, imagine a importância do papel de Jack, que do dia para a noite, se torna o interlocutor dos Beatles para um mundo que não os conhece.

And when all the broken hearted people

Living in the world agree

There will be an answer

The Beatles – Let It Be

O roteiro do experiente Richard Curtis (Cavalo de Guerra, Um Lugar Chamado Notting Hill) até trabalha essas duas facetas da história. Não por acaso, Jack soa arrogante quando não consegue a atenção das pessoas, afinal, ele está proporcionando a oportunidade de ouvir um clássico pela primeira vez, mas aquelas pessoas naturalmente ainda não tem esse discernimento.

Esse tipo de elemento demonstra o potencial do filme, mas seus realizadores resolvem seguir por um caminho mais fácil. A musica está presente em todo o filme, mas tematicamente, funciona como pano de fundo para um romance dos mais ordinários. O sucesso e as mudanças na vida de Jack acontecem repentinamente, ele se torna um fenômeno mundial, deixa sua cidade e amigos para trás, e passa a rodar o mundo em função do seu novo status. 

Daí, surge o conflito básico, entre o amor de sua vida e o sucesso. De todas as possibilidades, o filme segue uma das menos interessantes e aborda muito pouco dos efeitos da falta dos Beatles. É uma narrativa já abordada diversas vezes que tem como diferencial essa questão. Yesterday se torna um filme totalmente previsível. 

Por sinal, as escolhas do protagonista no terceiro ato, parecem ser mais motivadas por sua paixão do que propriamente por escolhas de cunho moral, fator que enfraquece um dos pontos mais importantes da produção e torna a relação de Jack com Ellie confusa. Pois desde o início, entendemos que os esforços de Ellie para alavancar a carreira de Jack, vêm da paixão que ela sente por ele, mas esse sentimento nunca soa recíproco e quando no terceiro ato, ele passa a questionar tudo o que conseguiu por ela, soa no mínimo contraditório.

O terceiro ato é um caso a parte. Todas as questões são convenientemente resolvidas, até novos personagens surgem sem maiores explicações, em um final digno das piores novelas.  

Yesterday

All my troubles seemed so far away

Now it looks as though they’re here to stay.

The Beatles – Yesterday

Dirigido pelo britânico Danny Boyle (Trainspotting), conhecido por sua virtuose estilizada, aqui tem um de seus trabalhos com menos personalidade. Carente de inspiração, se limita a introduzir alguns efeitos com letras coloridas buscando situar o espectador, mas o efeito acaba mais tirando o espectador do filme do que qualquer outra coisa. É uma direção burocrática, poderia ser realizada por qualquer outro diretor competente. Em nada lembra o cinema vibrante do diretor. 

O filme tem um ritmo agradável, funciona como romance, conta com atores carismáticos, a trilha sonora é bem trabalhada (funciona a favor do filme e não o contrário), mas o filme padece de originalidade e ousadia. Existem dois momentos na virada do segundo para o terceiro ato, que além de serem muito comoventes e até poéticos, denotam o potencial desperdiçado nessa produção. 

Yesterday poderia ser um grande filme, digno de figurar entre as musicas dos Beatles, mas termina como um filme razoável, e esse é um adjetivo que não pode ser associado ao quarteto de Liverpool.

Felipe Fernandes

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