Midsommar – O Mal Não Espera a Noite

2019. Midsommar. De Ari Aster. Com Florence Pugh, Will Poulter, Jack Reynor, William Jackson Harper, Vilhelm Blomgren, Isabelle Grill, Ellora Torchia e Anna Astrom.

Relacionamentos ruins, insegurança, família, instabilidade emocional, perda, culpa. A vida adulta, muitas vezes, por si só, parece um filme de terror em que os medos muito mais concretos parecem estar relacionados a estarmos presos na nossa própria existência e ser quem somos.

Muito pouco é necessário, para sentir esse terror cotidiano presente na rotina de Dani, vivida por Florence Pugh. Em uma relação de abuso emocional com uma irmã, mentalmente instável, a torna repleta de inseguranças e culpas que reverberam em sua vida pessoal, colocando-a em um relacionamento falido, com Christian, ao qual ela se agarra, aparentemente por acreditar não ser merecedora de coisa melhor.

Jack Reynor interpreta o rapaz que é mais um exemplo do quanto o diretor, Ari Aster (Hereditário), é consciente desses aspectos sombrios da realidade e explora isso como elemento importante ao longo da narrativa. Um jovem estagnado tanto na vida academicamente quanto amorosa, sem muita força vital aparente, para fazer escolhas, e acaba por simplesmente existir de forma apática e sem propósito.

O filme tem um ritmo lento, mas não só porque toma seu tempo para construir os personagens, que são todos elaborados e delimitados em algum nível, mas também porque parece querer nos fazer sentir o peso desse tempo, dessas vidas que se arrastam e o peso dessas relações tóxicas.

Em volta desse casal está um grupo de amigos vivido por William Jackson Harper, Vilhelm Blomgrene e Will Poulter. Cada personagem desenvolvido de forma a ocupar um lugar específico dentro da dinâmica, de forma que esses lugares e personalidades vão inclusive selar os destinos dos personagens, tal como as crianças em A Fantástica Fábrica de Chocolate.

Uma mudança de ares, principalmente após um acontecimento traumático ou difícil, as vezes parece ser tudo de que se precisa e eles embarcam em uma aventura para a Suécia, para conhecer a vila de um dos amigos e participar das celebrações tradicionais associadas ao solstício de verão.

Midsommar se constrói nos detalhes e possivelmente todos os elementos em cena, todos os diálogos, tem algum significado para além do que é aparente na hora, tudo que está em volta constrói a narrativa e o desfecho o tempo todo. Tudo é cíclico e simbólico, tal como a natureza e seus movimentos vitais, tal como o próprio solstício.

Ari Aster, mais uma vez se mostra um artesão na construção cinematográfica, já que todo o filme é ricamente construído; Figurino, direção de arte, fotografia, movimentos de câmera, direção de atores.

Mas o mais curioso nas escolhas do diretor é como ele brinca com a ausência de novidade ou de surpresa. A temática não é nova e o filme usa de diversos elementos de outros filmes antecessores a ele, até de mesmo nome. Não há praticamente nenhum elemento novo no que tange a história ou o desenrolar da narrativa, o que muda é simplesmente a maneira como a história é contada. O desprezo pela surpresa tradicional parece ser tão grande que com o olhar atento é possível dentro do filme a história sendo contada antes mesmo de acontecer, presentes e direção arte ou de diálogo ou até na construção narrativa.

Midsommar é um filme visualmente lindo, com movimentos de câmera hipnotizantes. Quando penso em seitas, sempre me pergunto como aquelas pessoas topam fazer parte de algo que parece tão obviamente perverso, mas Midsommar parece me explicar por algumas vertentes o poder que o fascínio exerce.

Quando você está tão absorto que é impossível desviar o olhar por mais feio que seja o que acontece na sua frente. Faz refletir também sobre o quanto é importante se sentir parte de algo, principalmente quando não se tem nada. Como é importante sair da inércia e se sentir no controle e também o quanto é preciso pouco para normalizar coisas que são, a princípios, absurdas ou inimagináveis.

A construção da tensão é feita tão bem e tão sutilmente que, mesmo quando você acha que sabe o que vai acontecer, não existe alívio, só expectativa e nervoso. E se, de fato você está certo, a conclusão do momento é tão assombrosa ou até mais do que se você não soubesse. É a sensação oposta do jump scare, porém, nem por um segundo, menos chocante. Há talvez um pavor maior na ideia da expectativa de algo que você sabe que vai acontecer, mas está torcendo pra estar errado, só que de um jeito ou de outro, nada pode fazer pra evitar o que está por vir.

Há uma “simplicidade” realista no grotesco, no violento, tudo como aparentemente seria, do sangue aos barulhos produzidos, onde o choque está na crueza das situações, mais do que em elaboradas tentativas de susto. O maior provocador de tensão é o saber o que está prestes a acontecer e se estar simplesmente prostrado, paralisado, inerte diante dos desdobramentos. Essa sensação se espelha diretamente na personalidade dos personagens principais e suas vidas. Aqui os personagens, o desenrolar e a narrativa se combinam em um único fluxo cíclico.

O design de som é repleto de silêncios em que os acontecimentos se passam em sons tão horríveis quanto um simples baque surdo ou o farfalhar das plantas, a respiração, o barulho de pés na grama, deixando tudo ainda mais sombrio. Isso alternado com tambores e cantos que parecem bucólicos, mas que, no fundo, são macabros.

Apesar de toda a luz e cor é um filme frio, talvez como o planejado, mas se falta alguma coisa, talvez seja um calor que gerasse uma empatia maior com os personagens e fizesse com que nos importássemos mais.

Midsommar está longe de ser um terror tradicional, mas é capaz de se conectar ao lugar do medo e da tensão subvertendo esses sentimentos para o lugar da luz, da beleza. Certamente dividirá opiniões, mas é tão rico e bem pensado em detalhes que deveria ser visto, ao menos, para apreciação do exercício narrativo. Ou para admirar a intensa e visceral atuação de Florence Pugh, no que possivelmente é seu melhor trabalho. Ou ainda para admirar a direção e fotografia que são incríveis.

É certamente uma experiência que merece ser vivida.

Patricia Costa

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