Ad Astra – Rumo às Estrelas

2019. Ad Astra. De James Grey. Com Brad Pitt, Ruth Negga, Liv Tyler, Donald Sutherland, Kimberly Elise, John Ortiz, Jamie Kennedy, Loren Dean e Tommy Lee Jones.

“É mais difícil matar um fantasma do que uma realidade”

Virginia Wolf

A vida é uma enorme coleção de batalhas. Algumas são barulhentas e sangrentas, outras terminam antes mesmo de começarem, as vezes lutamos até contra moinhos de ventos. Mas as que parecem mais difíceis costumam nos massacrar em silêncio e podem durar a vida inteira, nos consumindo por dentro.

“Estou alerta, estou consciente do meu entorno. Estou focado no que é essencial e em nada mais”. Tal qual a avaliação psicológica feita por um astronauta no espaço, buscamos no dia-a-dia a crença e a certeza de estarmos direcionando nossos esforços para aquilo que é importante, ou que consideramos importante. Trabalho, dinheiro, realização pessoal. Porém, muitas vezes, simplesmente seguimos, cumprimos obrigações e a vida acontece ao nosso redor, enquanto por dentro somos só vazio, um vazio tão vasto quanto o universo que nos cerca e muitas vezes nos oprime e para o qual temos igualmente poucas respostas.

Em um futuro próximo, Brad Pitt é Roy McBride, um astronauta que trabalha numa vertiginosa torre de comunicação, que foi construída na esperança de fazer contato com outras formas de vida fora da terra.  Quando a torre é atingida por uma sobrecarga de energia vinda do espaço, ele acaba recebendo a informação de que o pai, vivido por Tommy Lee Jones, um famosos astronauta que fez história explorando o universo, desaparecido há mais de 30 anos, pode estar vivo e sua expedição estar relacionada à origem dessas rajadas de energia, que estão colocando em risco todo o sistema solar. É preciso então embarcar em uma jornada através do universo, na esperança de contactar a expedição e tentar impedir que as explosões continuem.

Aquilo em que acreditamos, muitas vezes nos molda e define nossa maneira de ver o mundo e nos relacionar com ele. Nossas verdades são quase como pilares da nossa existência e a quebra dessas estruturas é quase tão disruptiva quanto uma explosão de energia no universo. A calma de Roy, seu foco, sua aparente estabilidade emocional inabalável, são adornados por uma melancolia no olhar que parece esconder muitas batalhas pessoais.

A jornada para salvar o mundo, rapidamente se transforma em uma viagem através dessa existência melancólica e daquilo que o levou até ali. Uma busca, principalmente, por essa imagem idealizada do pai e do que seria essa verdade, não só no tocante aos acontecimentos, mas em si mesmo e na sua própria existência.  A profundidade transmitida por uma linguagem corporal rica, muitas vezes, meramente pelo olhar e pela inflexão da voz, refletem a grandeza da atuação de Brad Pitt.

Há um realismo contagiante na experiência espacial, pouco experimentado em outros filmes, que é um frescor e torna toda a experiência muito relacionável. Não há nenhuma tecnologia mirabolante que nos tire da história por ser pouco plausível, tudo é muito próximo daquilo que temos e conhecemos hoje, usando até de um tom talvez rudimentar de certos aparelhos e certas aeronaves.  O filme é simplesmente lindo, com uma fotografia que, apesar de propor poucos cenários ou situações novas dentro do contexto espacial explorado, faz isso de forma tão realista que é estarrecedor, por muitas vezes até assombroso.

Essa aproximação do real é uma característica que pode ser sentida em outros filmes do diretor James Gray, que parece buscar esse diferencial na experiência. Esses elementos trabalham muito a favor do filme, construindo um espaço que é um pano de fundo, funcionando como uma grande metáfora e recurso narrativo e não como objeto primeiro da narrativa.

É interessantíssimo ver como ao longo da história vemos pequenos elementos desse futuro construído à imagem e semelhança do presente, em que a nossa expansão pelo universo é igualmente sem graça, previsível e nos moldes capitalistas quanto o crescimento de uma cidade do interior em torno de uma fábrica recém-inaugurada; um voo comercial para a Lua é igualmente repleto de custos adicionai exorbitantes quanto um voo comercial qualquer; e a lua, assim como tantos outros lugares na terra, palco de disputas territoriais.

Porém, apesar de a existência piratas no desértico terreno lunar ser bastante plausível e o elemento ser importante na construção desse universo, as cenas de ação parecem servir muito mais aos possíveis anseios mercadológicos do filme do que à narrativa e ao personagem propriamente ditos, e esses momentos acabam sendo a grande nota fora da produção.

A viagem de Roy na tentativa de salvar o mundo ao encarar a verdade, não é uma história de ação espacial. É muito mais a viagem que muitas vezes precisamos fazer para salvar a nós mesmos, travando batalhas, emocionais, físicas, morais, na esperança de que, ao fazer isso, a jornada nos leve a algum lugar, nos tire dessa falsa estabilidade e segurança.

É preciso encarar a solidão, para entender que não estamos bem sozinhos. É preciso enfrentar os moinhos de vento que nós mesmos construímos e caçar nossas baleias brancas para entender que às vezes focamos no que não está lá, e perdemos o que está bem na nossa frente. Para aterrissar no nosso destino com a sensação de que por fim “estou alerta, estou consciente do meu entorno. Estou focado no que é essencial e em nada mais”.

Patricia Costa

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