Coringa

2019. Joker. De Todd Phillips. Com Joaquin Phoenix, Zazie Beetz, Robert DeNiro, Mac Maron, Brett Cullen, Douglas Hodge, Shea Whigham, Bill Camp, Brian Tyree Henry e Frances Conroy.

Loucura e sanidade, certo e errado, realidade e ilusão. Quem determina o que é o que? Quais os limites que regem as definições que nos cercam? Quais são as linhas que traçam e determinam esses conceitos? Sociedade, moral, empatia, ética.

Se esse lugar em que estamos inseridos, se essa sociedade em que vivemos influência na nossa constituição como indivíduos, como acredita Durkheim, qual será o produto de uma sociedade em ruínas? 

Lixo, violência, sujeira. Gotham manifesta em suas ruas uma crescente degradação. Um abandono fora de controle. Colocando pra fora o que há de pior e costumava ficar escondido. Uma condição interna que transborda e toma as ruas. Uma imagem fácil de associar à uma crescente da realidade no presente, passado e provavelmente futuro. A materialização física da deterioração de uma sociedade coletivamente perversa. Uma perversidade estratificada que não vem de um ou outro setor social, mas que é generalizada.

Arthur Fleck é um entre milhões. Uma pessoa a margem de uma sociedade em decadência, que respira diferença e precisa da pobreza para funcionar como sistema. Uma estrutura que não vê, nem ouve, mas massacra, joga na sarjeta e cospe naqueles de quem precisa para se sustentar. Todd Phillips nos apresenta intimamente esse homem, tão de perto, que chega a ser claustrofóbico e desconcertante, tanto que por vezes é quase como adentrar sua mente e ficamos ali presos entre o fascínio e a a versão.

Empatia é uma palavra em voga no momento e é realmente difícil olhar para esse homem aparentemente frágil, vez e outra recebendo o que a vida lhe reservou e não sentir nada. É impossível não se relacionar com uma realidade tão bem construída à nossa imagem e semelhança, pintada majestosamente com o olhar de Todd Phillips, que consegue ser poético e artístico e, ao mesmo tempo, extremamente realista, exaltado pela fotografia de Lawrence Sher. O filme é tão belamente filmado com ângulos intimistas e uma palheta de cores que cria tão perfeitamente a ambientação, que por vezes bastaria a simples contemplação.

Mas mesmo absorto na beleza do filme é igualmente impossível não ver a maldade que espreita, a confusão crescente, há todo o tempo um desconforto por algo que parece querer sair das sombras.  É  impossível ignorar o que há por trás da risada nervosa e da falta de manejo social, há algo no personagem que a empatia não nos impede de ver ou condenar, já que entender uma coisa não significa necessariamente concordar com ela.

Cada passo, cada olhar, cada música, cada arroubo de Joaquim Phoenix busca entender a sua existência tanto quanto nós do lado de cá da tela. E ficamos embevecidos com a complexidade e a naturalidade presentes em qualquer mínimo gesto do ator,  tudo se complementa num desdobrar constante nessa busca por ser, por existir e se fazer notar. E é inacreditável e estarrecedor ver o personagem tomando forma e saindo das sombras enquanto luta com os relacionamentos que desenvolve ou tenta desenvolver.

Mãe, pai, afeto, trabalho, admiração. Ainda que em pinceladas, com a presença desses elementos nos personagens de Frances Conroy, Zazie Beetz, Brett Cullen, Glenn Fleshler, o personagem ganha ainda mais contorno e complexidade.

Há um brilhantismo no roteiro ao espelhar o personagem no universo ao seu redor, numa vertigem em que realidade e ilusão, forma e conteúdo,  se confundem e se complementam. Uma narrativa que levanta uma infinidade de questões incomodas, sem determinar nada, sem aparentemente favorecer um ponto de vista moral, mas que privilegia a causalidade, “as coisas são o que são”. E mesmo a sensação ou a certeza de que as consequências são eminentes, isso não nos prepara para a surpresa e o assombro causados pela escalada dos acontecimentos. 

Um homem doente que é  espelho da sociedade que o fez? Ou uma sociedade doente em que os loucos guiam os cegos?

Não faltam conexões que nos façam traçar pararalelos com a ficção e pensar na realidade e nas possibilidades, na causalidade presente no modelo social que temos. O filme não nos poupa, como sociedade, de questionar a nossa parcela de responsabilidade.

É difícil não ser impactado e talvez leve tempo para se recuperar, digerir ou até mesmo sair do cinema. Então, quando o que se tira da experiência é a preocupação e o medo por uma possível reação ao filme que imite a ficção, talvez  Kurossawa esteja certo: “Em um mundo louco, só os loucos estão sãos”.

 “Assim é a vida”. Coloque um sorriso no rosto, continue fingindo que esta tudo bem, como é exigido, e siga, sem saber bem em direção ao que.

Patricia Costa

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