Coringa (Spoilers)

Essa crítica contem spoilers do filme.

O Coringa sempre foi um dos personagens mais marcantes dos quadrinhos e da sétima arte. Talvez pelo aspecto visual, ou pela loucura inerente, é um personagem que nunca precisou de muita explicação, suas características visuais e comportamentais sempre passaram uma mensagem muito clara, fato que sua origem nunca foi um campo muito explorado.

Esse talvez seja o elemento mais perigoso na adaptação de um filme solo do vilão que tem por objetivo contar a origem do personagem. Mas o longa de Todd Phillips vai muito além dessa questão, ao abandonar ligações estéticas e narrativas com as recentes adaptações cinematográficas dos quadrinhos e até mesmo com o material fonte, Coringa é um profundo e intimista estudo de personagem que vai além da maquiagem de palhaço.

     Que espécie de palhaço anda carregando uma arma ?

Escrito pelo diretor Todd Phillips e por Scott Silver, o filme é situado entre o final da década de 70 e o início da década de 80, período de recessão na economia americana, cenário perfeito para desenvolver aspectos sociais importantes, que funcionam como pano de fundo e potenciais motivações para o desenvolvimento da trama.

O protagonista Arthur Fleck (Phoenix) surge em seu primeiro momento já maquiado como palhaço em uma das imagens mais fortes do filme, que demonstra o estado de espírito do personagem. A introdução é eficiente em mostrar o estado de miséria social e mental do personagem e daquela sociedade.

Aparentemente influenciado pela mãe, Arthur quer provocar alegria e sorrisos em uma sociedade decadente, onde a miséria e a desigualdade são a regra. Em sua primeira caminhada para casa, vemos o personagem com um andar pesado, cabisbaixo, caminhando por ruas sujas e escuras, subindo pesadamente uma escada que têm uma simbologia importante dentro do filme.

O filme trabalha muito os contra pontos e os usa de maneira eficiente, buscando o desconforto. O próprio protagonista têm um distúrbio que funciona muito bem com o personagem, em que ele começa a gargalhar em situações em que ele fica tenso, gerando um estranhamento muito bem vindo a obra.

Outro contra ponto interessante é sua passividade. Ao contrário do que possa imaginar, ele não é um personagem violento – um elemento fundamental para que possamos de alguma forma nos identificar com ele. Prova disso é que o ato que gera o ponto de virada no filme é uma reação, ele simplesmente reage a seus agressores, atitude que mostra a ele que é possível reagir, em uma cena que é seguida de uma das cenas mais bonitas do ano; o momento que Arthur começa a se reconhecer, em uma dança levemente iluminada pela cor verde (característica do vilão) e que termina com o personagem se encarando em um espelho, um reflexo não só visual, mas narrativo.

O roteiro ainda traz elementos do passado do personagem que se misturam com a família do então jovem Bruce Wayne e se essa associação soa desnecessária e forçada durante grande parte do filme, um dos momentos finais do longa faz tudo valer a pena em um dos momentos mais importantes na compreensão da forma de pensar e de enxergar o mundo do comediante.

Outra ligação com o universo do homem morcego é a cidade de Gotham, que aqui é claramente retratada como Nova York, mas em uma versão degradante.  É nesse cenário que o diretor Todd Phillips trabalha a psique de personagem.

A pior parte de possuir uma doença mental, é as pessoas quererem que você se comporte como se não a possuísse.

Usando takes claustrofóbicos, visando causar desconforto, geralmente Phoenix surge muito próximo da câmera, trabalhando essa idéia de proximidade, de intimidade com o personagem, com uma câmera levemente instável, o diretor Todd Phillips cria imagens poderosas, sempre focado na figura de Joaquim Phoenix e trabalhando alguns simbolismos como reflexos, grades e a já citada escadaria.

Reparem como Phoenix surge em algumas cenas chave (que só vamos descobrir sua importância mais para frente) com o rosto ocupando quase todo o quadro e atrás de grades, numa clara alusão a personalidade enclausurada de Arthur que vai ganhando força. Servem de exemplo a cena em que ele persegue sua vizinha e futuramente descobrimos que naquele momento ele estava fora do controle de suas atitudes e no momento em que ele vai até o Asilo Arkham buscando informações sobre sua mãe e simplesmente pergunta “O que alguém faz para entrar aqui?”.

A escadaria, presente em pôster e nos trailers também traz um simbolismo interessante. Notem como ele sempre surge subindo as escadas, de forma pesada, quase se arrastando, o único momento em que ele surge descendo as escadas é o seu momento de libertação, quando ele já devidamente trajado, dançando, com uma postura corporal totalmente diferente da apresentada até ali, tendo o ato de descer representando a decadência moral do personagem e a profundidade da libertação do Coringa.

O filme ainda consegue brincar com momentos de humor, mas um humor distorcido, como o representado pelo personagem. O filme faz uso de uma brilhante trilha sonora para reforçar essa característica e isso acontece desde a introdução, não por acaso o título do filme surge em um tom amarelo ocupando toda a tela enquanto ao fundo vemos Arthur espancado em posição fetal.

É seguro dizer que Joaquim Phoenix têm uma das melhores atuações do ano e de sua carreira. É notória a imersão do ator naquele personagem, mais uma vez, ele entrega um trabalho intenso que impressiona, causa desconforto, repulsa e faz rir em momentos não agradáveis.

Phoenix surge muito mais magro que o habitual e seu físico esquelético é parte importante da composição do personagem, não só por passar fragilidade, mas algumas cenas, seus ossos protuberantes causam incômodo. Seu trabalho corporal também impressiona, a forma segura e ereta com que ele passa a se mover após sua libertação, em contraste com o andar arrastado do início, mostram a mudança de postura e de atitude do personagem.

A gargalhada é um elemento fundamental na composição de Phoenix, o personagem passa o longa inteiro trabalhando essa risada, como se buscasse sua própria voz, uma forma de se expressar, sendo ela um elemento fundamental na construção do personagem.

     Eu me lembrei de uma piada. Você não entenderia.

O filme usa dois atos na composição do personagem e em sua transformação, entregando um terceiro ato apoteótico. A cena no programa de tv é excelente. A escolha de Robert De Niro para viver o espectador é inspirada, numa clara referência ao “Rei da comédia”, filme de Martin Scorsese que têm também um comediante (interpretado por DeNiro) com distúrbios como protagonista.

O Coringa se torna o símbolo de uma sociedade doente, uma situação que não é forçada pelo personagem, mas que ganha nele a imagem ideal. Elemento já trabalhado na trilogia de Nolan, mas tendo o Batman como símbolo de esperança.

Mas Todd Phillips é inteligente ao entender que o filme é sobre Arthur Fleck, ele nunca deixa o contexto sobressair, é uma jornada pessoal intensa e desgastante, até mesmo para o espectador, que em sua maioria deve sair esgotado emocionalmente da exibição.

A sequência final é brilhante em estabelecer a forma de agir e pensar do Coringa. Se até aquele momento, a ligação com os Wayne parecia um capricho e a morte do casal um momento desnecessário (ninguém aguenta mais ver os Wayne sendo assassinados), o momento em que ele pensa na imagem do casal e no pequeno Bruce (órfão), como uma piada, tem um impacto poderoso

A cena final, do personagem correndo pelo manicômio, sujando o chão de sangue, enquanto dribla os guardas ao som de uma música alegre, numa mistura de humor e violência, elementos tão contraditórios, mas que são a essência do Coringa, mostram a complexidade e o potencial de um personagem que ultrapassou barreiras e ganhou seu próprio palco.

Felipe Fernandes

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