Morto Não Fala

Idem, 2019. De Dennison Ramalho. Com Daniel de Oliveira, Bianca Comparato, Fabíula Nascimento, Marco Ricca e Annalara Prates.

O cinema brasileiro nunca foi adepto de produções consideradas de gênero. Fora as comédias e os dramas, o cinema nacional nunca teve muita diversidade nesse sentido. Um dos gêneros que têm história dentro do cinema independente é o terror. Ancorado na figura de Zé do Caixão, o cinema nacional teve algumas produções de destaque nas décadas de 60 e 70 e depois perdeu força. De uns anos pra cá, novamente no cinema independente, o gênero vêm ganhando força e lentamente vai ganhando espaço.

Morto Não Fala é uma produção que leva o terror ao primeiro escalão do nosso cinema. Um filme de baixo orçamento, mas que é eficiente em sua proposta. Baseado no livro de Marco de Castro, o longa conta com um bom roteiro e tem no elenco principal atores renomados e muito atuantes em cinema.

 Na trama, Stênio (Daniel de Oliveira) é um pai ausente, que vive em um casamento fracassado, com uma esposa que o repudia. Ele trabalha no plantão noturno de um necrotério em São Paulo e possui o dom de conversar com os mortos. Quando ele começa a usar as informações que consegue com os mortos em benefício próprio, as coisas fogem do controle e o mundo espiritual volta para cobrar seu preço.

O longa transita entre o suspense, o horror, o gore e o macabro, abrangendo várias características. A natureza do trabalho de Stênio já permite cenas graficamente impactantes e merece destaque o designe de produção e a equipe de efeitos, sempre que o filme trabalha efeitos práticos, consegue resultados excelentes. O mesmo não pode ser dito dos efeitos digitais, que são muito artificiais e acabam tirando muito do peso das cenas.

A premissa é muito interessante, o roteiro acerta ao não tentar explicar a origem do dom do protagonista e o primeiro ato é excelente em estabelecer as relações dos personagens, suas motivações e a progressão da trama acontece de forma muito natural, culminando em um ponto de virada muito forte.

Essa pegada de drama urbano com o dom do protagonista agindo como fio condutor funciona muito bem. Ainda mais se tratando de um país violento como o nosso. Porém, após o grande ponto de virada, o filme segue por outro caminho, deixando o lado urbano de lado e focando no aspecto sobrenatural, tornando o filme um terror mais convencional.

Um fator interessante, é que o filme traz elementos do gênero para a realidade da periferia de São Paulo, tornando o filme singular em muitos aspectos. Esqueça as mansões e os ambientes escuros. Aqui o terror acontece em uma casa pequena, o mal não se esconde no quarto do porão, ele acontece em todos os lugares.

O roteiro escrito pelo diretor Dennison Ramalho e Cláudia Jouvin é bem coeso, mas tem alguns problemas. A relação da família de Stênio com a personagem Lara (Bianca Comparato) é interessante no andamento da história, mas soa muito forçada, não há nada no roteiro que justifique a união deles. A relação dela com a mãe poderia ser utilizada para juntar Lara a Stênio, mas essa é uma idéia desperdiçada, que o roteiro usa em uma única cena. O filme também conta com algumas cenas desnecessárias e são justamente essas cenas que trazem os diálogos mais expositivos.

Dennison Ramalho faz sua estréia em longa metragens e demonstra intimidade com o gênero, fruto de seus curtas também de terror. Chama a atenção a maneira como Ramalho consegue criar tensão em ambientes pequenos, pouco suscetíveis ao susto. Fazendo uso de uma trilha e efeitos sonoros competentes na imersão do espectador. O filme não conta com cenas muito inventivas, aposta nos clichês, mas tudo realizado de maneira eficiente em manter o clima e a tensão do filme.

Morto Não Fala é um filme diferente por misturar elementos clássicos do terror na realidade de uma grande metrópole brasileira. Uma mistura que soa bem natural e permite uma estética diferente. Torçamos para que nosso cinema abrace os filmes de gênero. Misturar os elementos de nossa cultura com características de diversos gêneros, pode criar filmes interessantes e tornar nosso cinema cada vez mais diversificado.

Felipe Fernandes

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