MOSTRA 2019: Filme canadense renova o gênero dos gangsters.

Em determinado momento de Máfia S/A um criminoso vira para sua inocente irmã e pergunta: – “Qual o seu plano?”. A pergunta parece simples e direta, mas nunca ouvimos a resposta. A conclusão mais obvia que tiramos ao final do novo filme de Daniel Grou (conhecido como Podz no Canadá) é que, neste mundo não existem criminosos ou inocentes. Mas independente de quem seja, todos tem um plano.

Nos primeiros minutos, somos apresentados à Frank Paterno, um imigrante siciliano que comanda a família mais poderosa da máfia de Montreal. O ano é 1994 e o plano é, em comum acordo com o novo governo italiano, construir a primeira ponte que ligará a Sicília à Calábria. Um negocio legitimo, que proporcionará a Família, mesmo tão longe, lavar o dinheiro do crime e garantir um lucro inimaginável até então. Para isso, o chefão precisa acalmar os ânimos das gangues locais e atrair menos atenção da mídia e da polícia. Negócios e problemas de família entram em conflito quando um dos capos da organização promove um crime bárbaro na Venezuela, sem autorização dos líderes.

Grou é um diretor versátil. Trabalhou em diversas séries para a televisão na França, EUA e, obviamente, no Canadá. Entre as mais famosas estão diversos episódios de The Hunger, Vampire High e da badalada Vikings. Está no Brasil para divulgar o filme na 43a Mostra Internacional de Cinema, de São Paulo. Tive a satisfação de entrevista-lo após a exibição do filme e descobri um pouco mais sobre suas motivações para expor a força da Máfia Canadense na cidade de Montreal:

‘Para mim, pessoalmente, desde que não matem ninguém, não me importo tanto com a Máfia. Eles são uma empresa, como qualquer outra”.

Sentimento que ele certamente acredita ser compartilhado pelos próprios Canadenses. Embora não tenha data oficial de estreia aqui, a produção é aguardada para fevereiro em seu país, e o diretor espera que Mafia Inc. (no original) possa mudar um pouco a maneira de pensar dos conterrâneos:

“Eu espero que abram os olhos. Se você compra queijo ou sorvete em Montreal, você está dando dinheiro pra Máfia. Quero que as pessoas percebam que isso é parte da vida delas. O que vão fazer sobre isso?”

Sua inspiração não tem a vivencia de um Martin Scorsese, que acompanhou os movimentos da Máfia desde criança da janela de sua casa. Grou nasceu em Quebec. O interesse no projeto lembra a trajetória que Francis Ford Coppola teve para criar seu épico definitivo O Poderoso Chefão (1972). Daniel Grou também tomou como ponto de partida uma obra literária de mesmo nome, dos escritores André Cédilot e André Noel, sobre a familia Rizzuto.

“Na verdade metade dos acontecimentos do filme são reais e metade são ficção. Mas tivemos o aval de investigadores e dos criminosos locais que sabiam da existência da produção e até ajudaram na elaboração do roteiro”.

Curiosamente, a liberdade da produção foi tanta que até atraiu a atenção de alguns “suspeitos”:

“Nunca fomos incomodados pela Máfia local mas uma vez recebemos a visita, durante as gravações, de uma dupla suspeita. Eles se apresentaram como “sobrinho de fulano” e “neto de ciclano”. Eu disse “ok”, os convidei pra assistir e continuamos as gravações sem problemas”.

Reais ou não, muito do que assistimos em Máfia S/A parece homenagear a saga da família Corleone. Do patriarca em busca da aliança com o crime organizado até as grandes festas que servem como desculpas para reunir lideres criminosos e traçar novos planos. No entanto, um novo elemento do gênero se destaca; neste mundo, as mulheres não só tem conhecimento, como participação direta nos negócios.

“Elas fazem parte da família e são tão responsáveis quanto os homens. Descobrimos que muitas vezes são as mentes por trás de planos elaborados e violentos. Talvez por culpa da criação doentia que tiveram.”

Para aqueles que acham que já viram filmes demais sobre o tema e não acreditam que possa haver inovação, os últimos minutos guardam uma deliciosa reviravolta (que confesso, me fez pular surpreso do assento). A cena é toda criada em volta de um dialogo tranquilo e natural entre dois personagens muito próximos, até o momento que um deles (e o público) percebe que tudo que foi dito é uma sutil ameaça, bem ao estilo italiano.

A ultima cena coloca um ponto final em toda a trama mas também abre espaço para uma sequencia. Quando questionado sobre o assunto, o diretor não descartou a possibilidade de revisitar o mundo da Cosa Nostra:

Primeiramente espero que o público goste deste. É o primeiro filme que faço que é mais comercial. Talvez possa haver uma história ali. Mas para um próximo projeto, eu gostaria de contar uma história sobre uma banda de rock. Um musical.

A personalidade tranquila do diretor contrasta com a energia de seus personagens. Seu filme anterior Rei Dave (2016), filmado em um plano sequência de uma hora e quarenta minutos, apresenta a história de um criminoso que se autodenomina Rei:

“Meus filmes tratam de pessoas com problemas na cabeça. Acho que gosto de personagens que não são muito normais”.

Tendo visto a longevidade e interesse do publico no genero, acho que todos temos que concordar com Daniel Grou.

Marcelo Cypreste

Máfia S/A ainda tem exibição na Mostra de São Paulo neste Domingo 27/10, às 15h20, Terça 29/10, às 15h40, e Quarta 30/10, às 21h10.

Aguarde a cobertura de outros filmes da 43a Mostra Internacional de Cinema no Ratos de Cinema até o final do evento, dia 30 /10.